domingo, 15 de novembro de 2009

Vício da lembrança

‘Escrevi.

Tanto que apaguei tudo

Para dizer: ‘Eu te amo’”


Só isso e nada mais, um bilhete deixado em um banco, e a certeza de não saber o que fazer. Maria era tímida. Talvez pelos anos de perseguição aos defeitos exercida pelos amigos dos colégios pelos quais passara. Da feiúra ao pleno resplandecer, a vida quis assim, e o fado da pobre garota era a discrepância entre a mente feia e o lindo corpo. Nunca soubera como agir com os belos rapazes que a ela juravam eterno amor, nunca soube sequer deixar-se levar por paixão qualquer, e nunca soube o que é o amor.

Tolas palavras, as dos poetas. A vida vazia era remédio para viver sem abalos. De tensões, nada entendia. Era frígida, calma, e sempre lúcida. Nem a morte dos pais a fez chorar. Ela bem que tentou, mas as lembranças dos açoites e maltratos contiveram os traços e a velha expressão estática voltou a reinar na bela face da moça. Nem de morte os poetas entendem.

A vida quis também, que de tantos que tentaram, um conseguisse, pouco à pouco, roubar-lhe o coração. No começo não era nada além da estranha sensação de não ser agraciada, o homem à instigou com todo aquele desprezo. Ela pensava não ligar, mas naquele dia, sentiu não era lá tão forte assim.

Ele à amou desde o primeiro cruzar de olhos, era tão linda que de um lance fez-se perpétua em imagem nas lembranças do rapaz. Abaixou a cabeça e nada fez, convencido de que nada podia e consolado pela magnífica beleza que já estava guardada em sua memória, aquilo para ele já bastava. Já bastava para o momento, pois do vício da lembrança, a moça fez-se cólera em sua mente. O rapaz já não fazia nada, e nada queria fazer senão lembrar do belo sorriso que acreditava nunca mais ver.

Nunca mais verei! Nunca mais verei! Afirmou tanto que foi obrigado a se questionar. Nunca mais verei? Da cólera das lembranças, surgiu a necessidade do encontro, e o moço passou a voltar ao lugar precisamente à mesma hora por dias. Somente no quinto a moça surgiu. Impetuosa ao andar, rodeada de favores, toda ocupada em seus afazeres, ela lembrou do homem que não à olhava nos olhos; e quis saber mais sobre as coisas que se passavam naquela cabeça abaixada.

De Bom dia à como vai, do talvez amanhã ao hoje sim. Os dias passavam e os encontros tornavam-se necessários. Sentados em um banco de praça, conversavam sobre tudo o que sabiam, discutiam e se questionavam, às vezes até brigavam. Briguinhas bobas, questões de opinião. Sucediam normalmente, até o dia que não.

A coisa ficou feia quando o rapaz achou por bem avisa-la que costumava passar noites em claro pensando na próxima vez que a encontraria. Disse que as últimas semanas foram mágicas e aterrorizantes ao mesmo tempo, que ela já não sairia da cabeça dele. Gaguejava. Quis falar de rosas, quis falar do céu, do mar, e do infinito. Disse que a amava. Quis ser poeta. Nada o veio, mas o desabafo foi completo. “Não há nada, absolutamente, que eu faça, que não me remeta a você.” E ao prever a reprovação expressa na face seca da bela dama, argumentou: “já não espero nada de ti, acho que – exceto a sua existência – nunca nada esperei.” Do silêncio à fala da moça, infinito no pensamento do rapaz.

“Eu já devia suspeitar, você nada tem de diferente dos outros. Cafajestes, estão ficando cada vez mais argilosos. Veja só, agora já se dão o trabalho de espreitar suas ‘vítimas’ por algum tempo.” Disse enquanto ia embora sem olhar para trás.

Foi ao chegar em casa que deu conta do sentido das palavras que ele tinha dito. Percebeu que já não havia nada que conseguisse fazer sem nele pensar. Confusa, e sempre metódica, quis escreve-lo para que transbordassem seus pensamentos. Quis ser poetiza ao perceber a bela tolice presente nos mais pobres poemas. Se entendeu tanto que o mundo mudou, escreveu tanto que tudo apagou e, no banco dos encontros, um bilhete, deixou.