quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Caso casado.


Como de costume, Beto tocou a campainha da casa de Clarinha. Pela hora, a mãe da menina já sabia que era o garoto chamando a sua filha para brincar na praça.

- Clarinha! O Beto chegou, escova os dentes e pode sair. Já sabe, ? Se não voltar antes do escurecer eu boto Deus e o mundo atrás de você! E não me saia daquela praça!

Clarinha já sabia que o discurso não mudava, e mentalizava palavra por palavra enquanto pronunciava freqüentes “tá’s”. Findo o bordão, corria para a porta. E com uma ânsia de correr o mundo, a abria e voava pela calçada que a levava à praça.

Naquele dia o garoto parecia estranho, não correra atrás dela. Fora andando cabisbaixo chutando o vento como quem a pretensão de levar uma pedra para casa. Sentou no balanço ao lado do que o da inquieta menina e olhou para o nada. O tempo passou, o balanço balançou, uma nuvem escureceu o céu, e ele falou:

- Clarinha.

- O que foi? – disse com um tom meio ofegante de quem quer balançar mais alto.

- Você já sentiu ciúmes?

- Não sei, acho que já. Por que?

- Como é isso?

- Que papo é esse Beto? De onde você tirou esse negócio de ciúmes?

- Eu ouvi a minha mãe falando no telefone ontem de noite. Ela falava o tempo inteiro pro Carlos não sentir ciúmes do meu pai.

- Carlos é aquele chefe do seu pai?

- É.

- Aquele que te deu o carro de controle remoto?

- É.

- Ele é legal.

- Me explica o que é ciúmes!

- Ah, é quando você quer uma coisa só pra você. Você não me deixa brincar com o carrinho que ganhou do Carlos por que tem ciúmes dele. Entendeu?

- Então a gente só pode ter ciúmes das nossas coisas?

- Acho que sim. Não sei, lá vem você com essas suas complicações – percebeu que teria que conversar e parou de balançar.

- Meu pai casou com a minha mãe, então um é do outro. É normal sentirem isso um do outro, ?

- Isso.

- Mas e o Carlos, porque ele teria ciúmes do meu pai?

- Vai ver eles tem um caso ...

- Caso, como assim?

- Ai, como você é bobinho. Não vê novela, não? O Artur Fontana, aquele personagem do Tarcisio Meira é casado com a da Glória Pires e tem um caso com aquela empregada lá. Ele fala que são “escapadinhas” – riu.

- E se ele resolver casar com a empregada?

- Aí vira caso casado.

- Então a minha mãe tem um caso com o Carlos? – parou e procurou o nada novamente.

- Olha pra mim – disse a menina, erguendo o queixo do pensativo garoto –, eu sei que devia ter te contado isso antes, mas eu achei que você poderia nunca descobrir, e isso seria melhor... Eu acho...

- O que é?

- Outro dia eu ouvi a minha mãe falando que o viu o Carlos com a sua mãe, que tinha quase certeza que era um caso.

O garoto a olhou com um silêncio de não saber como reagir. Inocente demais para sentir raiva, ou sequer entender o que se passava.

- Tá, o Carlos tem um caso com a minha mãe. Mas quando a gente tem caso com uma pessoa, essa pessoa não é nossa nem pode ter ciúmes, são escapadinhas... ?

- É... – disse a menina franzindo a sobrancelha e se esforçando para acompanhar o raciocínio.

- E quando duas são casadas, tem direito do ciúmes. Como pode um caso ter ciúmes do casado? Sendo que o caso sabe que antes de ser caso o seu caso era casado com outro? Eu acho que o caso só pode ter ciúmes quando vira caso casado, porque aí o primeiro casado já não é mais casado. Pode até virar caso, mas não pode ter ciúmes.

- Eu concordo – disse sorrindo. O garoto esquecia de tudo, por ter feito uma teoria que Clarinha concordara e agora olhava imponente por cima do nariz empinado. Ela continuou:

- Mas as pessoas são estranhas, e esse negócio de sentir ciúmes parece ser mais complicado do que eu achava que era.

- Clarinha... – a menina virou, atendendo ao chamado do garoto.

- Me promete uma coisa?

- O que?

- Se um dia, alguém te disser que sente ciúmes quando te vê comigo, me avisa?