segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Perfeito Sorriso

Só o brilho da noite macia,

Só os lábios que acaricia,

A vida e o ato triste de viver sem,

O desmundo do sem ninguém.


Cresce a planta, morre o dia.

Com toda a beleza que se inicia.

Traz e leva a lembrança embora,

Do peito que agora chora.


Cresce o manto fruto do pecado,

Que ousou um dia estar ao lado.

Canta e dança o que de belo existe,

Só para lembrar que a vida é triste.


Diz belezas pelas quais se enamora,

E grita do peito a dor de outrora.

Cria a vida que acha que tem,

Por não ter de entrega-la a ninguém.


Mostra os dentes para a lua nova,

E grita o quanto agüentar possa.

Corre e pula para dizer ao mar,

Que já não pode mais esperar.


O encontro de altar, a voz a falar, a boca a beijar,

Ou a morte, o encanto acabar.

Canta os versos quando se anuncia,

Sem saber do fim,

Que há de nunca chegar,

Sem pelo menos ter lucidez,

Do perfeito sorriso a sorrir outra vez.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Caso casado.


Como de costume, Beto tocou a campainha da casa de Clarinha. Pela hora, a mãe da menina já sabia que era o garoto chamando a sua filha para brincar na praça.

- Clarinha! O Beto chegou, escova os dentes e pode sair. Já sabe, ? Se não voltar antes do escurecer eu boto Deus e o mundo atrás de você! E não me saia daquela praça!

Clarinha já sabia que o discurso não mudava, e mentalizava palavra por palavra enquanto pronunciava freqüentes “tá’s”. Findo o bordão, corria para a porta. E com uma ânsia de correr o mundo, a abria e voava pela calçada que a levava à praça.

Naquele dia o garoto parecia estranho, não correra atrás dela. Fora andando cabisbaixo chutando o vento como quem a pretensão de levar uma pedra para casa. Sentou no balanço ao lado do que o da inquieta menina e olhou para o nada. O tempo passou, o balanço balançou, uma nuvem escureceu o céu, e ele falou:

- Clarinha.

- O que foi? – disse com um tom meio ofegante de quem quer balançar mais alto.

- Você já sentiu ciúmes?

- Não sei, acho que já. Por que?

- Como é isso?

- Que papo é esse Beto? De onde você tirou esse negócio de ciúmes?

- Eu ouvi a minha mãe falando no telefone ontem de noite. Ela falava o tempo inteiro pro Carlos não sentir ciúmes do meu pai.

- Carlos é aquele chefe do seu pai?

- É.

- Aquele que te deu o carro de controle remoto?

- É.

- Ele é legal.

- Me explica o que é ciúmes!

- Ah, é quando você quer uma coisa só pra você. Você não me deixa brincar com o carrinho que ganhou do Carlos por que tem ciúmes dele. Entendeu?

- Então a gente só pode ter ciúmes das nossas coisas?

- Acho que sim. Não sei, lá vem você com essas suas complicações – percebeu que teria que conversar e parou de balançar.

- Meu pai casou com a minha mãe, então um é do outro. É normal sentirem isso um do outro, ?

- Isso.

- Mas e o Carlos, porque ele teria ciúmes do meu pai?

- Vai ver eles tem um caso ...

- Caso, como assim?

- Ai, como você é bobinho. Não vê novela, não? O Artur Fontana, aquele personagem do Tarcisio Meira é casado com a da Glória Pires e tem um caso com aquela empregada lá. Ele fala que são “escapadinhas” – riu.

- E se ele resolver casar com a empregada?

- Aí vira caso casado.

- Então a minha mãe tem um caso com o Carlos? – parou e procurou o nada novamente.

- Olha pra mim – disse a menina, erguendo o queixo do pensativo garoto –, eu sei que devia ter te contado isso antes, mas eu achei que você poderia nunca descobrir, e isso seria melhor... Eu acho...

- O que é?

- Outro dia eu ouvi a minha mãe falando que o viu o Carlos com a sua mãe, que tinha quase certeza que era um caso.

O garoto a olhou com um silêncio de não saber como reagir. Inocente demais para sentir raiva, ou sequer entender o que se passava.

- Tá, o Carlos tem um caso com a minha mãe. Mas quando a gente tem caso com uma pessoa, essa pessoa não é nossa nem pode ter ciúmes, são escapadinhas... ?

- É... – disse a menina franzindo a sobrancelha e se esforçando para acompanhar o raciocínio.

- E quando duas são casadas, tem direito do ciúmes. Como pode um caso ter ciúmes do casado? Sendo que o caso sabe que antes de ser caso o seu caso era casado com outro? Eu acho que o caso só pode ter ciúmes quando vira caso casado, porque aí o primeiro casado já não é mais casado. Pode até virar caso, mas não pode ter ciúmes.

- Eu concordo – disse sorrindo. O garoto esquecia de tudo, por ter feito uma teoria que Clarinha concordara e agora olhava imponente por cima do nariz empinado. Ela continuou:

- Mas as pessoas são estranhas, e esse negócio de sentir ciúmes parece ser mais complicado do que eu achava que era.

- Clarinha... – a menina virou, atendendo ao chamado do garoto.

- Me promete uma coisa?

- O que?

- Se um dia, alguém te disser que sente ciúmes quando te vê comigo, me avisa?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O maior dos amores

Sei da angústia que me dá viver
Desde o dia que me esquadrinhei
E decidi sozinho o caminho percorrer.

Eram tantas as opções de vida plena
Que eu me vejo optar pela esbórnia de toda noite
E me calo no encanto do luxo da vida.

A morrer de ciúmes sem posses
Num estado miserável de consciência
Por saber que ela poderia ser minha.

Objetos se quebram ao meu redor
Em uma tentativa já intrínseca ao que sou
De tentar entender o que fui e o que quero ser

O que seria da vida conjugal? Vai saber...
Daqui não me movo para construção nenhuma
Até o dia em que me der conta
Que construí o maior dos amores...