quinta-feira, 21 de maio de 2009

Rodas.

Já sentado é difícil sair de casa. Mas vou. É preciso. Acordar, ainda no frio de junho no Rio é chato, mas é mais fácil pensar que o horário de verão que passou traria um sentimento escroto de sair de casa ainda noite. Levanto sem levantar, melhor, ergo-me. O tronco vai, enquanto as pernas ficam. Visto-me no transtorno de aceitar a vida com ela é. Se eu ao menos dispusesse de ajuda qualquer, cansei de buscar sentido algum na vida complacente.

Passo por portas pequenas, as de tamanho suficiente são raras demais. Ah, os degraus da vida. Poucos são os que sabem o quanto os sinto. Ando nas ruas, sinto a vida, subo obstáculos, de frente ou de costas - com algum estranho que me ajude ou sozinho. Aliás, não sei o que me incomoda mais; se é o olhar de solidariedade ou o que está disposto a dar assistência desde que solicitada.

Chego. O sinal não é muito distante da minha casa. As "compras" já foram feitas para o mês, e eu agradeceria a Deus se não tivesse mais o que vender no fim dos trinta dias. No meu colo, levo tudo o que acho que poderia ser útil àqueles que passam apressados pelo meu lado. Chicletes, balas, limpadores de para-brisa, panos, e até um suporte para aparelhos "gps" que certa vez me convenceram que seriam de última moda. Ainda bem que não comprei muitos desses. Me dá aflição só de lembrar da face do filho da puta que me fez acreditar que tais aparelhos viriam de fábrica sem tal suporte.

A vida é meio concorrida por aqui. Os sinais mais demorados - como são os mais próximos à minha palhoça - são disputados pelos mais desprezíveis seres. Você, usuário de drogas, experimente pedí-las para um suposto vendedor de balas bom humorado. O bom humor só é possível com certa dose de felicidade, que - estou cada vez mais certo disso - é trazida, sim, pelo tal do dinheiro.

Acho que se não fosse uma venda "daquelas", um deles nunca se propuria a empurrar a minha cadeira a cada minha tentativa falha de volta para o sinal. Começo a gostar do tráfico, empurrar as rodas me causa uma dor insuportável nos braços.