quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Rosas são clichês.


Rosas são clichês.

E o amor é sempre o que há de ser.

O amor é a rosa.

E a lua, e os fins de tarde,

E o sorriso que me traz à rosa.

O mar, os náufragos e seus desejos,

Afundam-se inteiros no clichê das rosas.

Nada mais é poesia, nada mais é belo.

Pois o que há de mais belo já foi dito.

Repito, e grito aos sete ventos dos clichês,

A angústia da insensatez.

É triste e belo o fato de querer para mim,

Reinventar o que de mais belo existe

Por saber que quando digo que te amo

Não chego perto de dizer o que sinto.

domingo, 15 de novembro de 2009

Vício da lembrança

‘Escrevi.

Tanto que apaguei tudo

Para dizer: ‘Eu te amo’”


Só isso e nada mais, um bilhete deixado em um banco, e a certeza de não saber o que fazer. Maria era tímida. Talvez pelos anos de perseguição aos defeitos exercida pelos amigos dos colégios pelos quais passara. Da feiúra ao pleno resplandecer, a vida quis assim, e o fado da pobre garota era a discrepância entre a mente feia e o lindo corpo. Nunca soubera como agir com os belos rapazes que a ela juravam eterno amor, nunca soube sequer deixar-se levar por paixão qualquer, e nunca soube o que é o amor.

Tolas palavras, as dos poetas. A vida vazia era remédio para viver sem abalos. De tensões, nada entendia. Era frígida, calma, e sempre lúcida. Nem a morte dos pais a fez chorar. Ela bem que tentou, mas as lembranças dos açoites e maltratos contiveram os traços e a velha expressão estática voltou a reinar na bela face da moça. Nem de morte os poetas entendem.

A vida quis também, que de tantos que tentaram, um conseguisse, pouco à pouco, roubar-lhe o coração. No começo não era nada além da estranha sensação de não ser agraciada, o homem à instigou com todo aquele desprezo. Ela pensava não ligar, mas naquele dia, sentiu não era lá tão forte assim.

Ele à amou desde o primeiro cruzar de olhos, era tão linda que de um lance fez-se perpétua em imagem nas lembranças do rapaz. Abaixou a cabeça e nada fez, convencido de que nada podia e consolado pela magnífica beleza que já estava guardada em sua memória, aquilo para ele já bastava. Já bastava para o momento, pois do vício da lembrança, a moça fez-se cólera em sua mente. O rapaz já não fazia nada, e nada queria fazer senão lembrar do belo sorriso que acreditava nunca mais ver.

Nunca mais verei! Nunca mais verei! Afirmou tanto que foi obrigado a se questionar. Nunca mais verei? Da cólera das lembranças, surgiu a necessidade do encontro, e o moço passou a voltar ao lugar precisamente à mesma hora por dias. Somente no quinto a moça surgiu. Impetuosa ao andar, rodeada de favores, toda ocupada em seus afazeres, ela lembrou do homem que não à olhava nos olhos; e quis saber mais sobre as coisas que se passavam naquela cabeça abaixada.

De Bom dia à como vai, do talvez amanhã ao hoje sim. Os dias passavam e os encontros tornavam-se necessários. Sentados em um banco de praça, conversavam sobre tudo o que sabiam, discutiam e se questionavam, às vezes até brigavam. Briguinhas bobas, questões de opinião. Sucediam normalmente, até o dia que não.

A coisa ficou feia quando o rapaz achou por bem avisa-la que costumava passar noites em claro pensando na próxima vez que a encontraria. Disse que as últimas semanas foram mágicas e aterrorizantes ao mesmo tempo, que ela já não sairia da cabeça dele. Gaguejava. Quis falar de rosas, quis falar do céu, do mar, e do infinito. Disse que a amava. Quis ser poeta. Nada o veio, mas o desabafo foi completo. “Não há nada, absolutamente, que eu faça, que não me remeta a você.” E ao prever a reprovação expressa na face seca da bela dama, argumentou: “já não espero nada de ti, acho que – exceto a sua existência – nunca nada esperei.” Do silêncio à fala da moça, infinito no pensamento do rapaz.

“Eu já devia suspeitar, você nada tem de diferente dos outros. Cafajestes, estão ficando cada vez mais argilosos. Veja só, agora já se dão o trabalho de espreitar suas ‘vítimas’ por algum tempo.” Disse enquanto ia embora sem olhar para trás.

Foi ao chegar em casa que deu conta do sentido das palavras que ele tinha dito. Percebeu que já não havia nada que conseguisse fazer sem nele pensar. Confusa, e sempre metódica, quis escreve-lo para que transbordassem seus pensamentos. Quis ser poetiza ao perceber a bela tolice presente nos mais pobres poemas. Se entendeu tanto que o mundo mudou, escreveu tanto que tudo apagou e, no banco dos encontros, um bilhete, deixou.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Prelúdio para o desencanto.

Seus cachos cabelos eram de parar
Só para eu só os apreciar
Sorriso de canto de querer voar
Som de pássaros ouvir cantar
Sentir o seu jeito macio de andar
Samba de roda e o seu rebolar
Santo desejo de aproximar
Suave era o cheiro do doce falar
Sobre bochechas o belo olhar
Sem graça por mim a me ver gaguejar
Sintoma do fato de querer beijar
Silencio da voz que não pude escutar
Soube do sim sem acreditar
Sentado no mundo me pus a voar
Sentindo a brisa que vinha do mar
Sai da canção me pondo a pensar
Que a perfeição que mexeu esse tanto
Imenso de tudo de volta meu pranto
Era lindo prelúdio para o desencanto

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Perfeito Sorriso

Só o brilho da noite macia,

Só os lábios que acaricia,

A vida e o ato triste de viver sem,

O desmundo do sem ninguém.


Cresce a planta, morre o dia.

Com toda a beleza que se inicia.

Traz e leva a lembrança embora,

Do peito que agora chora.


Cresce o manto fruto do pecado,

Que ousou um dia estar ao lado.

Canta e dança o que de belo existe,

Só para lembrar que a vida é triste.


Diz belezas pelas quais se enamora,

E grita do peito a dor de outrora.

Cria a vida que acha que tem,

Por não ter de entrega-la a ninguém.


Mostra os dentes para a lua nova,

E grita o quanto agüentar possa.

Corre e pula para dizer ao mar,

Que já não pode mais esperar.


O encontro de altar, a voz a falar, a boca a beijar,

Ou a morte, o encanto acabar.

Canta os versos quando se anuncia,

Sem saber do fim,

Que há de nunca chegar,

Sem pelo menos ter lucidez,

Do perfeito sorriso a sorrir outra vez.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Caso casado.


Como de costume, Beto tocou a campainha da casa de Clarinha. Pela hora, a mãe da menina já sabia que era o garoto chamando a sua filha para brincar na praça.

- Clarinha! O Beto chegou, escova os dentes e pode sair. Já sabe, ? Se não voltar antes do escurecer eu boto Deus e o mundo atrás de você! E não me saia daquela praça!

Clarinha já sabia que o discurso não mudava, e mentalizava palavra por palavra enquanto pronunciava freqüentes “tá’s”. Findo o bordão, corria para a porta. E com uma ânsia de correr o mundo, a abria e voava pela calçada que a levava à praça.

Naquele dia o garoto parecia estranho, não correra atrás dela. Fora andando cabisbaixo chutando o vento como quem a pretensão de levar uma pedra para casa. Sentou no balanço ao lado do que o da inquieta menina e olhou para o nada. O tempo passou, o balanço balançou, uma nuvem escureceu o céu, e ele falou:

- Clarinha.

- O que foi? – disse com um tom meio ofegante de quem quer balançar mais alto.

- Você já sentiu ciúmes?

- Não sei, acho que já. Por que?

- Como é isso?

- Que papo é esse Beto? De onde você tirou esse negócio de ciúmes?

- Eu ouvi a minha mãe falando no telefone ontem de noite. Ela falava o tempo inteiro pro Carlos não sentir ciúmes do meu pai.

- Carlos é aquele chefe do seu pai?

- É.

- Aquele que te deu o carro de controle remoto?

- É.

- Ele é legal.

- Me explica o que é ciúmes!

- Ah, é quando você quer uma coisa só pra você. Você não me deixa brincar com o carrinho que ganhou do Carlos por que tem ciúmes dele. Entendeu?

- Então a gente só pode ter ciúmes das nossas coisas?

- Acho que sim. Não sei, lá vem você com essas suas complicações – percebeu que teria que conversar e parou de balançar.

- Meu pai casou com a minha mãe, então um é do outro. É normal sentirem isso um do outro, ?

- Isso.

- Mas e o Carlos, porque ele teria ciúmes do meu pai?

- Vai ver eles tem um caso ...

- Caso, como assim?

- Ai, como você é bobinho. Não vê novela, não? O Artur Fontana, aquele personagem do Tarcisio Meira é casado com a da Glória Pires e tem um caso com aquela empregada lá. Ele fala que são “escapadinhas” – riu.

- E se ele resolver casar com a empregada?

- Aí vira caso casado.

- Então a minha mãe tem um caso com o Carlos? – parou e procurou o nada novamente.

- Olha pra mim – disse a menina, erguendo o queixo do pensativo garoto –, eu sei que devia ter te contado isso antes, mas eu achei que você poderia nunca descobrir, e isso seria melhor... Eu acho...

- O que é?

- Outro dia eu ouvi a minha mãe falando que o viu o Carlos com a sua mãe, que tinha quase certeza que era um caso.

O garoto a olhou com um silêncio de não saber como reagir. Inocente demais para sentir raiva, ou sequer entender o que se passava.

- Tá, o Carlos tem um caso com a minha mãe. Mas quando a gente tem caso com uma pessoa, essa pessoa não é nossa nem pode ter ciúmes, são escapadinhas... ?

- É... – disse a menina franzindo a sobrancelha e se esforçando para acompanhar o raciocínio.

- E quando duas são casadas, tem direito do ciúmes. Como pode um caso ter ciúmes do casado? Sendo que o caso sabe que antes de ser caso o seu caso era casado com outro? Eu acho que o caso só pode ter ciúmes quando vira caso casado, porque aí o primeiro casado já não é mais casado. Pode até virar caso, mas não pode ter ciúmes.

- Eu concordo – disse sorrindo. O garoto esquecia de tudo, por ter feito uma teoria que Clarinha concordara e agora olhava imponente por cima do nariz empinado. Ela continuou:

- Mas as pessoas são estranhas, e esse negócio de sentir ciúmes parece ser mais complicado do que eu achava que era.

- Clarinha... – a menina virou, atendendo ao chamado do garoto.

- Me promete uma coisa?

- O que?

- Se um dia, alguém te disser que sente ciúmes quando te vê comigo, me avisa?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O maior dos amores

Sei da angústia que me dá viver
Desde o dia que me esquadrinhei
E decidi sozinho o caminho percorrer.

Eram tantas as opções de vida plena
Que eu me vejo optar pela esbórnia de toda noite
E me calo no encanto do luxo da vida.

A morrer de ciúmes sem posses
Num estado miserável de consciência
Por saber que ela poderia ser minha.

Objetos se quebram ao meu redor
Em uma tentativa já intrínseca ao que sou
De tentar entender o que fui e o que quero ser

O que seria da vida conjugal? Vai saber...
Daqui não me movo para construção nenhuma
Até o dia em que me der conta
Que construí o maior dos amores...

sábado, 25 de julho de 2009

As curvas da estrada traziam a angústia de não o deixar saber das tragédias que podiam estar a esconder. Cada gota de chuva fina a gelar o antebraço brincava com a vontade de apagar o cigarro e fechar o vidro. Do lado, ela dormia. Olhares desviados, prolongados pela necessária espera pela iluminação dos postes da estrada, interrompidos pela necessária atenção ao caminho chuvoso. A mão na marcha, o sangue no punho, o vidro na pele. A mão na cabeça, o sangue no cabelo, o cigarro na boca e depois no asfalto. Ela tinha que ter puxado aquela arma? Do asfalto macio para o barro enlamaçado. Dois quilômetros só à luz dos faróis até que tudo parasse. O carro pára, o homem pára, a chuva pára, e ninguém respira. As mãos no volante e a cabeça entre os punhos, suspiros denunciam um choro de arrependimento. Não fosse o irrigar da terra promovido pela chuva, as esporas de manchas vermelhas não tocariam o solo. O homem andou até o porta-malas do carro, virou a chave, e fez o barulho de mala se abrindo se ouvir. Fincou a pá no solo e foi em direção ao acento do carona.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

De um cão vagabundo fez-me rei
Perdido no mundo a paz encontrei
Tão belos seus olhos, minha querida
Esquece-se a dor e o cansaço da lida

Quis cobrir-te de carinho e atenção
E você receosa de minha vida vadia
Mas dentro aqui só amor e emoção
Eu sei, por ti vou proceder
Abandonarei de vez a orgia

E foi só um deslize sem valor
Pra acabar de vez com a fantasia
Da esperança veio seu ódio e seu rancor
E minha vida cada vez mais vazia

Mas com essa mágoa passando do seu peito
Quem sabe me aceite de outro jeito
Eu hoje já não sou quem antes fui

Porque nessa vida aprendemos com nossos erros
Nossos medos, temores e defeitos
E o meu medo maior é te perder

Diego Ribeiro

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Voltar


Era tudo um paraíso,
Flores belas de pétalas macias
Mas as mesmas rosas
que faziam desse lugar, feliz .
fizeram questão de me atirar
todos os seus espinhos.

As calçadas odiavam quando eu passava
tentando pisar nos desenhos,
e eu era o tolo que as amava
acreditando que aqueles eram
os mais belos desenhos do mundo.

A mais bela cidade do mundo
era pequena e pacata,
mas aspirava um dia ser
a maior potência do mundo.

Ar

Eu só queria saber de alí ficar,
de pelas portas entrar,
e falar do bem que fazia o ar
só por um pouco dele poder respirar

As pessoas me olhavam a passar,
me viam cantar, me queriam matar.
Eu só queria a elas olhar,
observar seu caminhar,
falar bem do meu delas gostar.

Eu gostava de viajar,
mas de sempre para a cidade, voltar.
Dia de nuvens, não me esforço para lembrar.
No dia do encontrar, da minha alma lavar.

A porta fechada.

Você não pode voltar!
Na cidade, não vai mais entrar.
É bom que procure um lugar,
qualquer outro para morar.

Eu não pude acreditar,
quis poder os muros pular,
em carrocerias entrar.
pelo portão passar a assoviar.
Mas vi cada tentativa murchar,
e um desanimo se instaurar.

A procura de um novo lar,
sempre quis ,para lá, voltar,
e quando podia uma rota mudar,
via logo um motivo para por lá passar.
Vi a barba crescer e o caos reinar,
vi mulheres promíscoas em portas de bar.
Ninguém sabe como doía o meu querer voltar.

A saudade era tanta de me fazer chorar,
agonia de não poder perguntar,
que diabos havia acontecido por lá.
Por que raios queria a cidade me maltratar
eu que daria a vida por tanto la amar
momentos eu tive de desesperar

fazia de tudo para um plano bolar,
até que o acaso me fez encontrar.
um ex-vizinho da ex-cidade a falar,
Malditas notícias tive que escutar
da raiva eu quis a cidade odiar.
jurei para lá nunca mais voltar.

Chão

Nos sonhos eu vejo tanta confusão,
mulheres gritando a me ouvir não
nenhuma me arranca sequer confissão,
e que morram todos daquela prisão.

A tarde que cai traz aquele pifão,
que faz da garganta aberto vulcão,
soltando fumaça em erupção,
a noite boêmia é a minha direção.

Um copo, dois corpos, são a diversão.
A mente que vai sem saber dizer não,
ergue um brinde em meio à multidão.

Sair

Daquela cidade tive que sair,
e mais de 2 anos fiquei sem dormir.
Sonhando com o dia de poder partir,
levantando só para poder cair.

Vendo cada pensamento sumir
O peito aberto querendo fugir
O que era dor por fim se exaurir
a garganta fechada, de palavras munir

para enfim um brinde erguir!

"Amigos de bar,
vocês são os melhores!
pois me dão a melhor certeza de todas.
A de que não estarão aqui amanhã!"

A multidão a aplaudir,
bêbados a consumir,
a raiva do meu partir.


Saio com as ferramentas necessárias
e com a certeza que de destruirei
aquela cidade de merda!

Todos pagarão com o que de maior valor tiverem
e receberão os meus sinceros agradecimentos
pela extraordinária mudança
que mesmo sem querer
puderam me proporcionar.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Rodas.

Já sentado é difícil sair de casa. Mas vou. É preciso. Acordar, ainda no frio de junho no Rio é chato, mas é mais fácil pensar que o horário de verão que passou traria um sentimento escroto de sair de casa ainda noite. Levanto sem levantar, melhor, ergo-me. O tronco vai, enquanto as pernas ficam. Visto-me no transtorno de aceitar a vida com ela é. Se eu ao menos dispusesse de ajuda qualquer, cansei de buscar sentido algum na vida complacente.

Passo por portas pequenas, as de tamanho suficiente são raras demais. Ah, os degraus da vida. Poucos são os que sabem o quanto os sinto. Ando nas ruas, sinto a vida, subo obstáculos, de frente ou de costas - com algum estranho que me ajude ou sozinho. Aliás, não sei o que me incomoda mais; se é o olhar de solidariedade ou o que está disposto a dar assistência desde que solicitada.

Chego. O sinal não é muito distante da minha casa. As "compras" já foram feitas para o mês, e eu agradeceria a Deus se não tivesse mais o que vender no fim dos trinta dias. No meu colo, levo tudo o que acho que poderia ser útil àqueles que passam apressados pelo meu lado. Chicletes, balas, limpadores de para-brisa, panos, e até um suporte para aparelhos "gps" que certa vez me convenceram que seriam de última moda. Ainda bem que não comprei muitos desses. Me dá aflição só de lembrar da face do filho da puta que me fez acreditar que tais aparelhos viriam de fábrica sem tal suporte.

A vida é meio concorrida por aqui. Os sinais mais demorados - como são os mais próximos à minha palhoça - são disputados pelos mais desprezíveis seres. Você, usuário de drogas, experimente pedí-las para um suposto vendedor de balas bom humorado. O bom humor só é possível com certa dose de felicidade, que - estou cada vez mais certo disso - é trazida, sim, pelo tal do dinheiro.

Acho que se não fosse uma venda "daquelas", um deles nunca se propuria a empurrar a minha cadeira a cada minha tentativa falha de volta para o sinal. Começo a gostar do tráfico, empurrar as rodas me causa uma dor insuportável nos braços.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Entra e fecha a porta.


Vai e volta,
entra e fecha a porta.
Anda, quase corre.
De lá pra cá.
Vai pros fundos,
pisa no pato,
afugenta o cachorro,
cria uma briga.
Volta, entra e fecha a porta.
Olha o telefone toca.
Corre, atende.
Não é, desliga na cara.
desce escada.
sobe escada,
liga tv, esquenta o chuveiro.
Passa o shampoo,
ouve barulho.
Sai correndo.
Molha tudo, silêncio.
Enxuga, veste, desce.
Abre porta,
fecha janela.
Sai, vai e volta,
entra e fecha a porta.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sobre o muro

Dois olhos de menino acreditavam se esconder por cima do pequeno muro. A menina brincava no quintal, fingia não saber que era observada. Ah, essas mulheres. Como são capazes de já saber todos os meandros das relações com tão pouca idade? Ela o fazia endoidecer. Corria e pulava num balançar de cachos que fazia o menino esquecer do mundo. Ela tentava disfarçar quando conferia se ele ainda estava lá mas não conseguia, quando os olhares se encontravam ele abaixava, sentava e se perguntava sobre os seus atos e sentimentos. A cena se repetia constantemente, e quando os seus colegas de escola se gabavam das meninas conquistadas nas festinhas da turma, ele dizia ter uma namorada que morava na sua rua.

Uma noite, os vizinhos decidiram visitar os pais do garoto. Eram amigos e, embora morassem tão perto, fazia um certo tempo desde a última vez que conversaram. Na sala, os pais conversavam coisas que os dois não conseguiam acompanhar, entretanto, permaneciam quietos, sentados, estranhos de tão comportados.

- Clarinha, você gosta de vídeo-game? – perguntou a mãe do menino. Ele pensou rápido. Na certa a sua mãe percebera que ambos não estavam gostando da conversa de pais e iria propor que ele a mostrasse o seu quarto. E agora? Ela vai dizer não! Mentalizou e torceu. Naquele momento, se conformou com os olhares de cima do muro e quis não ter sonhado tanto com o dia em que a encontraria. O coração bateu forte e ele sentiu na barriga um frio de descida de montanha-russa. A menina fez que sim com a cabeça.

- Ah, então. Pedro, por que você não mostra uns joguinhos pra ela? – ele pensou “não” e fez cara de “tudo bem”. No gaguejo mental, levantou e foi em direção ao quarto.

- Não agüentava mais aquele papo... E aí, quais jogos você tem? – Ah, as mulheres. Ela fez o garoto não querer que chegasse a hora de os pais dela irem embora.

Ele nunca quis tanto que os seus colegas começassem a se gabar. No dia seguinte falaria com toda a propriedade que tinha passado a noite com a sua namorada.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Olhos

É quando se começa a questionar
a cor dos olhos por fotos
que está completamente comprometido
à causa do potecial amor.

Antes eram verde-escuros,
agora já começo a pensar em castanho-claros.
Malditas fotos à luz do sol!
Malditas fotos!

pudera eu te ver agora...
Os analisaria até perder-me
no infinito que eles me propõem.
Fundos e perfeitos,
são da cor que me der na telha.

Aliás, a hipnose provocada
é, para mim, motivo de tanta perfeição
que faz das cores e formatos
mera prerrogativa.
Amo olhar-te, ainda que de longe.

E querer-te, tanto que de perto.
Até o dia em que a sensação
provocada pelo cheiro de abraço
far-se-á maior
do que qualquer lindo desenho de olhos.

Dedos se entrelaçarão,
para me fazer fechar os olhos
ao lembrar do dia
em que supus quais seriam a cor dos teus.

domingo, 15 de março de 2009

Nirvana

Droga, odeio esperar. Esses momento nos fazem pensar em cada coisa, desde coisas inúteis como quantas pessoas devem ter sentado para esperar nesse banco à coisas paradoxais como no quanto odiamos ter que esperar. Acho que deve ter algum número de média por dia. A maioria deve preferir sentar exatamente onde eu estou, não têm muitas sombras por aqui. Se já tivesse alguém aqui acho que eu esperaria em pé mesmo, na sombra. Acho que sentaria no chão, até que esse gramado parece estar convidativo. Bem, estaria se eu estivesse aqui em busca de um período de meditação ociosa. Mas como estou esperando, ele só serve pra me dar vontade de levantar e andar de um lado pro outro. Por que será que fazemos isso quando esperamos? Deve ser por que quando fazemos algo o tempo parece passar mais rápido. Como a sombra por aqui é coisa rara, prefiro que essa coisa seja o pensamento paradoxal a andar de lá pra cá. Se bem que se eu levantasse e perdesse o acento, ia pensar em tantos xingamentos que o tempo com certeza passaria mais rápido.


Tá, lá vem ela. Acho que nem me percebeu ainda, isso é bom. Dá tempo de pegar o telefone e fingir estar fazendo algo. Espontaneidade! Ela vai ver só. Vai ouvir tudo! Ah, esse cheiro de shampoo...


- Oi! - meu Deus! Como eu pude um dia esquecer de como os olhos dela ficam lindos no sol?!

- Oi...

- Tudo bem?

- Ahan... - isso, deixe que ela ache que você não liga...

Como são impressionante as coisas que pensamos em frações de segundo dos silêncios dessas horas!

- Que bom... - disse ela virando a cabeça para pegar os livros e fazer os cabelos lançarem aquele cheiro outra vez. Levantou e foi embora.


É nessas horas que eu percebo ter tendências indus, já tentou ficar sem pensar em nada? Ouvi falar que isso é o nirvana. Tá, dura pouco, eu sei. E eu geralmente começo a pensar na definição de "nirvana" logo após atingí-lo. Enfim, quem não liga? eu ou ela? Anda, monge, aproveita esse celular na mão aí e liga pra ela. Fala, finge que liga, sei lá. Faz alguma coisa!

sábado, 14 de março de 2009

As águas nunca param

Eram dois barcos
Eu no meu
e você no seu
a descer
pelas corredeiras da vida

Sempre lado a lado
os cascos sempre colados
os braços sempre dados
às vezes, de tão juntos, abraçados.

Desciamos sempre contentes
devagar ou rapidamente
despencando das mais altas cachoeiras
e ficando feliz em perceber
que abraçados estávamos
na calmaria que sempre estava por vir

Inconveniente pedrinha!
a que fez os cascos descolarem-se
Dela fez-se uma bifurcação
que findou, dos braços, a união.

Estáticos eles ficaram
inertes à fôrma do abraço
Eu só via o seu olhar
pelas frestas de árvores que passavam
a pedir-me feito criança que quer colo

Da ilha do meio surgiram montanhas
que de tão altas me inibiam a vontade
recorrente de largar o meu barco
e correr para o seu rio

Meus braços nunca mais se moveram.
Para frente, eu nunca mais olhei.
Por esperar vale qualquer
que me deixasse te ver.

Antes fossem as montanhas, eternas!
Eu não te veria sorrindo a olhar para frente
O sorriso lindo era o mesmo
que me fazia aumentar o volume
das águas do meu rio em uma lágrima
e permanecer com os braços estendidos por ti.

Que chegue logo o oceano
Que eu odeio te esperar