sexta-feira, 21 de novembro de 2008

De olhos fechados

À noite, quando deitas
e teus lindos olhos fechas
Sabes que é minha,
a altiva voz que te clama

E sabes, que se tentas, podes ver-me.
A, por ti, sem rumo vagar
nos umbraos da vida
Sem pensar em te esperar,
a querer te preocupar.

Vê-me implorar-te a cada esquina
Sabes que teu corpo, peço!
Pois a cada só manhã
Sei que quando sinto o teu cheiro
Tu,também, meu cheiro sentes

E quando insistimos em pensarmo-nos
Vêmos duas amantes almas
Que, separadas bruscamente,
Sem culpa alguma do destino
Teimam em suspenderem-se

A bailar em um matar de saudade
Subversivo e inconsciente
Incerto e incoerente
Que é por frequente rompido abruptamente
Por estalar de dedos quaisquer
Que nos traz devolta à vida chorosa

De quem odeia ter de esperar
Aquilo se concretizar
Assim, volta se a levar
Aquela vida de vagar

A tentar abrir cadeados
Sem nunca deixar de chorar
sempre de olhos fechados.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Com sol ou chuva, os meninos adoravam jogar bola no quintal. Os gols eram facilmente demarcados por uma porta e pela entrada de uma rampa mal feita. Havia duas pilastras que funcionavam como zagueiros, e as paredes serviam aos jogadores como fiéis companheiros de time que sempre retribuíam seus passes. Certo dia, um primo chegou ao estádio com a idéia de um campeonato de golzinho individual. Vizinhos foram prontamente convocados e a organização foi feita, gastaram mais tempo sorteando as tabelas do que realmente jogaram. Uniformizados, arranjaram até um porta cd´s da mãe que serviria de troféu para o vencedor. Pediram também para que ela lavasse as roupas naquele momento, achavam que o barulho da máquina dançarina dava impressão de estádio lotado.

O campeonato começado, virou um tormento para a mãe, que vibrava - involuntariamente - a cada gol na porta de casa. Ela gostava tanto da festa que deu um jeito de sair de casa:

- Vocês estão com fome?
- Não, mãe, fecha a porta!
- Ah, mas vão ficar, vou à padaria rapidinho comprar pão para vocês lancharem!

Os jogos duraram até que Beto chutou, com toda a precisão que tinha, a bola para a casa do vizinho. O terreno do lado era uma vila, que geralmente habitava vizinhos legais, que não tinham problemas com devoluções de bolas. A bola só não poderia cair onde caiu. Quebrou a janela da velha mais coroca da rua e fez cada garoto correr para a sua respectiva casa. Beto, Juca e Danilo sobraram e se olharam sem acreditar.

- A minha mãe vai me matar!
- A Dilma vai nos matar!
- Calma, gente. Essa vizinha de vocês não pode ser tão má assim.
- Danilo, você viu se ficou alguém aqui pra nos ajudar?
- Dizem que ela arranca cabeça de pombos pra fazer macumba! Eu é que não entro lá!

Danilo, o primo mais velho tentou acalmar a situação;

- A gente espera a sua mãe chegar, ela pede a bola e paga o vidro. Vocês devem ficar de castigo de qualquer forma por tê-lo quebrado mesmo...
- Não! A mamãe não fala com a Dilma. Desde o dia do incêndio, quando ela brigou com o filho por ter vindo nos ajudar! Se não pedirmos, a bola vai ficar lá pra sempre...

Decidiram então, tocar a campainha da senhora. Tentaram algumas vezes, mas ela não respondia. Beto, então, encostou na porta entreaberta que deslizou fazendo barulho de porta de filme de terror. A sala só era iluminada pelo buraco que a bola havia feito na janela e os fachos de luz eram apenas suficientes para iluminar os rastos que a bola deixara na toalha branca de mesa. Os meninos então descobriram que a bola tinha rumado para a cozinha. Juca quis ficar na sala, se justificou - gaguejando - dizendo que alguém precisava ficar para avisá-los caso a bruxa entrasse pela porta da sala.

Ao entrarem na cozinha, Danilo avistou a bola, que estava parada na porta do suposto quarto de empregada. Juntos, foram pé ante pé até o próximo cômodo da fúnebre casa. Quando encostaram na bola, olharam para cima devagar e ao mesmo tempo. Luzes de velas vermelhas e imagens de santos que eles nunca tinham visto chamavam as suas atenções para um altar estranho. Lá estava ela, estropiada a entoar cânticos estranhos. Os meninos ficaram então, paralisados ao ver que a história dos pombos era verdadeira. Olhavam hipnotizados de medo, até que a velha, ao perceber a estranha presença, virou de pronto lançando um olhar aterrorizante aos meninos.

- Corre!

Saíram da casa mais rápido do que achavam que poderiam aos sons de: "voltem aqui, seus moleques!". Se Juca não fosse arrastado pelo irmão, talvez ficasse lá dentro. Os meninos voltaram para casa e relaxaram como nunca tinham feito antes, as risadas da tarde só foram interrompidas em um único instante. Quando a mãe chegou em casa e perguntou: ", cadê todo o mundo?"