sábado, 4 de outubro de 2008

Sertão na minha chuva

Este foi escrito em resposta a outro (chuva no meu sertão) que achei estupendo ao ponto de tê-lo aqui postado. A autora, Bárbara Araújo, demonstra sentimentos por outrem com tal idoneidade que se faz digna de referência. Eu, humildemente, respondi com remorsos próprios. Respeita-se, nos escritos que se seguem, a parcialidade proposta. Quanto ao sincretismo de pensamentos, cabe ao leitor destacar as intersecções presentes em cada um deles. O poema que se segue foi contemporâneo ao outro, não me perguntem porque cargas d´agua me deu a vontade de tê-lo posto aqui agora.


Sinta-se artista

daqueles que dão autógrafo

e ouvem o tempo todo

"gosto do seu poema".


Quero dizer, poetiza

"gosto do seu poema"

a ponto de o querer para mim

por querer ser gota

e em certo solo seco

penetrar mas fundo que chuvaréu.


Vício do utópico,

eterna vontade,

e viver a sonhar

daquilo se materializar.

E quem sabe ver

certo caos se instaurar


E ao sonhar,

perder o chão,

viver o que poderia ter sido

por instantes ver o chão chegar

o vão seco do solo se abrir

a me temer entrar


Acontece, poetiza,

que teu poema se faz gota

a tempestadear minhas horas

e a fazer explodir flores


Do que não vivemos,

dos sonhos que tivemos.

Ah, o nosso futuro inchegado.

Ah, as vontades inconsumadas.

Explode a flor da saudade

da minha dela proteção.


Na ânsia de gota ser

percebo gota ter

e acabo por reconhecer

que sempre com o orvalho-lágrima

hei de crescer.