segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sentiu o tempo parar, enquanto tudo girava. Os infinitos segundos faziam milhões de pensamentos chegarem ao mesmo tempo em que davam lugar a outros. Finalmente soube como era o que as pessoas que escaparam da morte tentavam explicar. Percebera que aquela história de que a sua vida passa na sua frente não era como um filme - antes ela pensava que se veria pequena -, naquele dia soube que a vida que passava era a presente.
Viu seus filhos deitados nas suas camas; viu cada cômodo da casa que conquistara com muito suor; viu amigos, todos que um dia fizeram-na sentir algo; pensou em cada questão que a fazia pensar nos últimos tempos. Olhou para o lado. A velocidade do movimento da cabeça, quando comparada com a de seus pensamentos, chegava a ser angustiante de tão devagar. O movimento que na realidade se realizava em uma fração de segundos, dava tempo suficiente para ela pensar em tudo antes do "não pensar" provocado pela visão que teve do marido. Os olhos dele tinham se fechado desde o primeiro impacto, segundos antes, também tivera os seus pensamentos de últimos instantes.
Depois de capotar 7 vezes, o automóvel parou na contra-mão. Ela não viu mais nada senão a tal luz branca tão mencionada pelos que dela escaparam, o caminhoneiro nada pode fazer. Desceu do caminhão com o telefone na mão, já chamando a emergência. Do retrovisor da ambulância, o socorrista viu a imagem de um homem desolado sentado na beira da estrada.
Hoje, ela completa 63 anos de idade. Agora eram os filhos que a viam deitada na cama, e mesmo depois de 30 anos, para eles aquilo era tão subjetivo quanto os pensamentos que ela teve deles há 30 anos atrás. 30 anos na cama, sem esboçar nenhum movimento. Sustentava a expressão triste de quem não muda a visão por não querer pensar em outra coisa. Há quem diga que ela sabe de tudo o que acontece ao seu redor, talvez por isso, o filho mais velho se sinta arrependido de ter dado a notícia, naquele quarto, aos mais novos, do falecimento to pai.