quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Galopante


O sol chegava na metade da sua jornada na cidade da terra amarela. Dona Geninha saiu de sua casa soltando fogo pelas ventas, a pressa a fazia chutar os galos e galinhas do quintal. Resmungava e reclamava de tudo, as gordas pernas tentavam andar mais rápido enquanto eram freiadas pela saia-avental. Dobrou a esquina, entrou em um galpão e gritou: - Antonio! - Nada ouviu além do eco da sua voz no salão vazio. - Antonio!!! - insistiu. Atravessou o salão e encontrou o menino na rua detrás.

- Jogando bola?
- Desculpa, madrinha, eu perdi a hora.
- Anda, vamos! Ainda tem muita coisa pra trazer pra cá - e fez questão de levar o garoto até a sua casa pelas orelhas.

A cozinha de Dona Geninha tinha se transformado em uma confeitariaria. Cozinheira de mão cheia, ficou encarregada de promover a comilança do casório da filha. O irmão de criação da noiva, Tunico, devia levar os quitutes para o salão onde aconteceria a festa. Quando entrou na cozinha, o menino esfregou a orelha inchada enquanto olhava maravilhado para todas as guloseimas que teria de carregar. A vontade de fugir para continuar a jogar futebol sumiu subtamente, frente a possibilidade de provar de tudo nas idas e vindas do serviço. Assim o fez, comeu de tudo, e de tanto se empanturrar, quase não conseguiu levar a última bandeja.

A noiva se arrumava do outro lado da cidade, e estava mais feliz do que estaria se não soubesse que o seu casamento não seria um evento normal. As ajudantes achavam que aquela euforia fosse normal, coisa de casamento, e tratavam de tentar acalmá-la:

- Tudo vai dar certo, menina. O seu casamento vai ser lindo, o mais lindo da história da cidade.
- Será que vai? - respondeu a noiva, com um estranho tom cético.
- Mas é claro! - disse outra - Ah, a minha menina, ontem era tão pequenina.
- Pára, Maria, deixa disso. E vamos logo, a noiva se atrasa mas nem tanto - disse a noiva, assustando as ajudantes com toda aquela determinação.

O carro velho, o único da cidade, conduzia a noiva para a igreja. O motorista , pomposo, agia como um de limousine - até um quepe tratou de arranjar. A noiva olhava para aquilo e ria das ostentações forjadas da família. Não demorou muito para que chegassem à porta da humilde igreja, o pai fez questão de abrí-la como manda o figurino. Aliás, que figurino! A farda branca era sinonimo de nobreza, e o militar fez questão de esfregar todas as medalhas até deixar cada uma brilhando como nova.

Até a noite anterior, ela não podia imaginar tal cena acontecer. Não queria casar com um fidalgo, mas depois do ocorrido na véspera do casamento, fez questão de entrar feliz. O sorriso aumentava a cada passo, e o altar foi visto por ela como nunca, tudo tomava um especial caráter de despedida que a fazia gostar de tudo o que um dia odiara. Pensou se poderia sentir saudade, mas ao olhar para a face de Dona Dulce - a fofoqueira da cidade - teve certeza de que não.

E tudo ocorreu como o combinado da noite passada. Ao questionamento do padre: - Se existe alguém que tenha algo a dizer, diga agora ou... - Ele entrou de cavalo e tudo na igreja. Imponente, não quis ligar para nada. Chegou ao altar, puxou a noiva para a garupa do cavalo e fugiu, galopante. A expressão do padre silenciado demonstrava o sentimento de todos os presentes. O pai, vermelho; A mãe, chorando; e a maioria, comemorando. Ela podia ter fugido na noite anterior, mas não; fez questão fazer na frente de todos e demonstrar a sua renúncia a tudo aquilo em prol de um bem maior. A cidade nunca mais foi a mesma, todos gostavam de lembrar da face feliz da noiva abraçando o seu amado no cavalo enquanto galopavam sem rumo.

A festa não aconteceu, mas as pessoas fizeram questão de ir para o salão só para comer as delícias da mãe da noiva. Dona Geninha não, foi pra casa chorar. E quase matou o menino que insistia em perguntar sobre os detalhes do ocorrido:

- Mas e o delegado, não fez nada?
- Ele tava mais chocado que o padre, já não disse?
- E Dona Dulce? Essa deve ter ficado feliz...
- Pára, menino! Se não tivesse comido tanto não teria passado o casório no banheiro e teria visto tudo.