sábado, 4 de outubro de 2008

Caminhos impostos

A casa estava fria.
Naquele dia, nem se o sol quisesse sair
conseguiria iluminar
os cantos dos húmidos cômodos.

A mulher e o castiçal
as mãos tremulas e cheias de rugas
morenas denunciavam
uma vida de baixo do sol.

Testanto o solo
de terra batida da palhoça,
ela caminhava em direção ao quarto.

O seu amor, que jazia na cama
esfriava ainda mais o ambiente.
Castiçal na cabeceira e copo d´agua na mão.

- Toma! A água te fará melhor.
Toma!
Quis gritar, ordenar!
Queria que ele acordasse.
Nunca levantara a voz para ele
E dessa vez não foi diferente

Por alguns instantes
se arrependeu da vida formal
de mulher que serve o marido.
Dessa vez não conteve
a vontade de abraçar
tão forte de cansar

Era tarde demais,
Ela nunca veria a reação
Do marido de tantos anos
Ao saber o tanto que ela o amava
E constatar que o casamento fora verdadeiro

Saindo do quarto, deu uma última olhada
Para acreditar e foi sentar no quintal.
Mãos na cabeça que desciam para os olhos
E balançava para frente e para trás.

A velha senhora foi acudida pelos vizinhos
Que trataram de tudo.
Ela, sozinha andou até as docas
Desatou o no do barco
O empurrou para o oceano
E disse soluçando: "vai, encontra o teu caminho.
O meu há de sempre ser aqui,
A velar tudo o que um dia me fez feliz."

Fez questão de prometer
Mais uma vez
Que nunca mais amaria alguém.