quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Minha Commedia dell´arte

Hei de fazer pães
até que a pútrida massa seque
até que esgotem-se todos os olhares
ou até que tudo em um trágico fim termine

pois em cada feiche de luz
de sorriso de colombina
renova-se a esperança de volta
e edoidesse o Pierrot e os pensamentos
de todo o futuro que há de ser presente

O coração corre apertado, so de imaginar
o dia em que todos se sentam à mesa
a provarem do pão, que há tanto esperava por ela.
Mas enquanto isso, faz se da vida, errante pretenção.

Chegado o dia, então. As lembranças da caixa sairão
abri-la antes disso, para mim seria
- de fato - reconhecer
que um dia poderia de ti esquecer

Eu, como pai dos palhaços tristes
espero o carnaval do ano que vem
vislumbro, de tanto prever
o encontro em um baile de máscaras

O reconhecimento do inconfundível único sorriso
que a tanto atormentou minhas pretenções.
Fazer desnecessária a pergunta:"quem é você?"
Hoje distante, sorriso malvado maltrata de novo

A distância é do tamanho da vontade
de te me fazer lembrar e sorrir, colombina.
Mas não fiques triste. O dia há de chegar!
Quando a carta encontrar, deverás lembrar.

De como é ser invadido por esse sentimento
de fazer o que preciso for
por apenas um olhar de frestas de escada
E nada mais fazer, sem antes pensar no que há de ser.
de mim sem você.

domingo, 19 de outubro de 2008

Monólogo Mundo Moderno (por Chico Anysio)



Mundo moderno, marco malévolo, mesclando mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutaias, majestoso manicômio. Meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio - maior maldade mundial.

Madrugada, matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna. Monta matumbo malhado munindo machado, martelo, mochila murcha, margeia mata maior. Manhãzinha, move moinho, moendo macaxeira, mandioca. Meio-dia mata marreco, manjar melhorzinho. Meia-noite, mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua, mas monocórdia mesmice. Muitos migram, macilentos, maltrapilhos. Morarão modestamente, malocas metropolitanas, mocambos miseráveis. Menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo. Metade morre.

Mundo maligno, misturando mendigos maltratados, menores metralhados, militares mandões, meretrizes, marafonas, mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente, modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas.

Mundo medíocre. Milionários montam mansões magníficas: melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, mercedes, motorista, mãos... Magnatas manobrando milhões, mas maioria morre minguando. Moradia meiágua, menos, marquise.

Mundo maluco, máquina mortífera. Mundo moderno, melhore. Melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos. Maldito mundo moderno, mundinho merda.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Galopante


O sol chegava na metade da sua jornada na cidade da terra amarela. Dona Geninha saiu de sua casa soltando fogo pelas ventas, a pressa a fazia chutar os galos e galinhas do quintal. Resmungava e reclamava de tudo, as gordas pernas tentavam andar mais rápido enquanto eram freiadas pela saia-avental. Dobrou a esquina, entrou em um galpão e gritou: - Antonio! - Nada ouviu além do eco da sua voz no salão vazio. - Antonio!!! - insistiu. Atravessou o salão e encontrou o menino na rua detrás.

- Jogando bola?
- Desculpa, madrinha, eu perdi a hora.
- Anda, vamos! Ainda tem muita coisa pra trazer pra cá - e fez questão de levar o garoto até a sua casa pelas orelhas.

A cozinha de Dona Geninha tinha se transformado em uma confeitariaria. Cozinheira de mão cheia, ficou encarregada de promover a comilança do casório da filha. O irmão de criação da noiva, Tunico, devia levar os quitutes para o salão onde aconteceria a festa. Quando entrou na cozinha, o menino esfregou a orelha inchada enquanto olhava maravilhado para todas as guloseimas que teria de carregar. A vontade de fugir para continuar a jogar futebol sumiu subtamente, frente a possibilidade de provar de tudo nas idas e vindas do serviço. Assim o fez, comeu de tudo, e de tanto se empanturrar, quase não conseguiu levar a última bandeja.

A noiva se arrumava do outro lado da cidade, e estava mais feliz do que estaria se não soubesse que o seu casamento não seria um evento normal. As ajudantes achavam que aquela euforia fosse normal, coisa de casamento, e tratavam de tentar acalmá-la:

- Tudo vai dar certo, menina. O seu casamento vai ser lindo, o mais lindo da história da cidade.
- Será que vai? - respondeu a noiva, com um estranho tom cético.
- Mas é claro! - disse outra - Ah, a minha menina, ontem era tão pequenina.
- Pára, Maria, deixa disso. E vamos logo, a noiva se atrasa mas nem tanto - disse a noiva, assustando as ajudantes com toda aquela determinação.

O carro velho, o único da cidade, conduzia a noiva para a igreja. O motorista , pomposo, agia como um de limousine - até um quepe tratou de arranjar. A noiva olhava para aquilo e ria das ostentações forjadas da família. Não demorou muito para que chegassem à porta da humilde igreja, o pai fez questão de abrí-la como manda o figurino. Aliás, que figurino! A farda branca era sinonimo de nobreza, e o militar fez questão de esfregar todas as medalhas até deixar cada uma brilhando como nova.

Até a noite anterior, ela não podia imaginar tal cena acontecer. Não queria casar com um fidalgo, mas depois do ocorrido na véspera do casamento, fez questão de entrar feliz. O sorriso aumentava a cada passo, e o altar foi visto por ela como nunca, tudo tomava um especial caráter de despedida que a fazia gostar de tudo o que um dia odiara. Pensou se poderia sentir saudade, mas ao olhar para a face de Dona Dulce - a fofoqueira da cidade - teve certeza de que não.

E tudo ocorreu como o combinado da noite passada. Ao questionamento do padre: - Se existe alguém que tenha algo a dizer, diga agora ou... - Ele entrou de cavalo e tudo na igreja. Imponente, não quis ligar para nada. Chegou ao altar, puxou a noiva para a garupa do cavalo e fugiu, galopante. A expressão do padre silenciado demonstrava o sentimento de todos os presentes. O pai, vermelho; A mãe, chorando; e a maioria, comemorando. Ela podia ter fugido na noite anterior, mas não; fez questão fazer na frente de todos e demonstrar a sua renúncia a tudo aquilo em prol de um bem maior. A cidade nunca mais foi a mesma, todos gostavam de lembrar da face feliz da noiva abraçando o seu amado no cavalo enquanto galopavam sem rumo.

A festa não aconteceu, mas as pessoas fizeram questão de ir para o salão só para comer as delícias da mãe da noiva. Dona Geninha não, foi pra casa chorar. E quase matou o menino que insistia em perguntar sobre os detalhes do ocorrido:

- Mas e o delegado, não fez nada?
- Ele tava mais chocado que o padre, já não disse?
- E Dona Dulce? Essa deve ter ficado feliz...
- Pára, menino! Se não tivesse comido tanto não teria passado o casório no banheiro e teria visto tudo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sentiu o tempo parar, enquanto tudo girava. Os infinitos segundos faziam milhões de pensamentos chegarem ao mesmo tempo em que davam lugar a outros. Finalmente soube como era o que as pessoas que escaparam da morte tentavam explicar. Percebera que aquela história de que a sua vida passa na sua frente não era como um filme - antes ela pensava que se veria pequena -, naquele dia soube que a vida que passava era a presente.
Viu seus filhos deitados nas suas camas; viu cada cômodo da casa que conquistara com muito suor; viu amigos, todos que um dia fizeram-na sentir algo; pensou em cada questão que a fazia pensar nos últimos tempos. Olhou para o lado. A velocidade do movimento da cabeça, quando comparada com a de seus pensamentos, chegava a ser angustiante de tão devagar. O movimento que na realidade se realizava em uma fração de segundos, dava tempo suficiente para ela pensar em tudo antes do "não pensar" provocado pela visão que teve do marido. Os olhos dele tinham se fechado desde o primeiro impacto, segundos antes, também tivera os seus pensamentos de últimos instantes.
Depois de capotar 7 vezes, o automóvel parou na contra-mão. Ela não viu mais nada senão a tal luz branca tão mencionada pelos que dela escaparam, o caminhoneiro nada pode fazer. Desceu do caminhão com o telefone na mão, já chamando a emergência. Do retrovisor da ambulância, o socorrista viu a imagem de um homem desolado sentado na beira da estrada.
Hoje, ela completa 63 anos de idade. Agora eram os filhos que a viam deitada na cama, e mesmo depois de 30 anos, para eles aquilo era tão subjetivo quanto os pensamentos que ela teve deles há 30 anos atrás. 30 anos na cama, sem esboçar nenhum movimento. Sustentava a expressão triste de quem não muda a visão por não querer pensar em outra coisa. Há quem diga que ela sabe de tudo o que acontece ao seu redor, talvez por isso, o filho mais velho se sinta arrependido de ter dado a notícia, naquele quarto, aos mais novos, do falecimento to pai.


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Leva o casaco!

Hoje, deixo o guarda-chuva em casa
Não há motivos para não querer me molhar
E o casaquinho, não sai mais do armário

A vida segue e não parece querer te impor nada
O que me faz esquecer do amanhã, com clichês.
Afinal, os dentes do juízo, arranquei de uma vez

O que me faz querer voltar
É o mesmo que faz querer ter
De volta, tudo do que um dia reclamei

Amanhã, levarei o guarda-chuva com um sorriso
Ela só queria que eu não me molhasse
E o armario todo passará a andar com o casaquinho

sábado, 4 de outubro de 2008

Caminhos impostos

A casa estava fria.
Naquele dia, nem se o sol quisesse sair
conseguiria iluminar
os cantos dos húmidos cômodos.

A mulher e o castiçal
as mãos tremulas e cheias de rugas
morenas denunciavam
uma vida de baixo do sol.

Testanto o solo
de terra batida da palhoça,
ela caminhava em direção ao quarto.

O seu amor, que jazia na cama
esfriava ainda mais o ambiente.
Castiçal na cabeceira e copo d´agua na mão.

- Toma! A água te fará melhor.
Toma!
Quis gritar, ordenar!
Queria que ele acordasse.
Nunca levantara a voz para ele
E dessa vez não foi diferente

Por alguns instantes
se arrependeu da vida formal
de mulher que serve o marido.
Dessa vez não conteve
a vontade de abraçar
tão forte de cansar

Era tarde demais,
Ela nunca veria a reação
Do marido de tantos anos
Ao saber o tanto que ela o amava
E constatar que o casamento fora verdadeiro

Saindo do quarto, deu uma última olhada
Para acreditar e foi sentar no quintal.
Mãos na cabeça que desciam para os olhos
E balançava para frente e para trás.

A velha senhora foi acudida pelos vizinhos
Que trataram de tudo.
Ela, sozinha andou até as docas
Desatou o no do barco
O empurrou para o oceano
E disse soluçando: "vai, encontra o teu caminho.
O meu há de sempre ser aqui,
A velar tudo o que um dia me fez feliz."

Fez questão de prometer
Mais uma vez
Que nunca mais amaria alguém.

Sertão na minha chuva

Este foi escrito em resposta a outro (chuva no meu sertão) que achei estupendo ao ponto de tê-lo aqui postado. A autora, Bárbara Araújo, demonstra sentimentos por outrem com tal idoneidade que se faz digna de referência. Eu, humildemente, respondi com remorsos próprios. Respeita-se, nos escritos que se seguem, a parcialidade proposta. Quanto ao sincretismo de pensamentos, cabe ao leitor destacar as intersecções presentes em cada um deles. O poema que se segue foi contemporâneo ao outro, não me perguntem porque cargas d´agua me deu a vontade de tê-lo posto aqui agora.


Sinta-se artista

daqueles que dão autógrafo

e ouvem o tempo todo

"gosto do seu poema".


Quero dizer, poetiza

"gosto do seu poema"

a ponto de o querer para mim

por querer ser gota

e em certo solo seco

penetrar mas fundo que chuvaréu.


Vício do utópico,

eterna vontade,

e viver a sonhar

daquilo se materializar.

E quem sabe ver

certo caos se instaurar


E ao sonhar,

perder o chão,

viver o que poderia ter sido

por instantes ver o chão chegar

o vão seco do solo se abrir

a me temer entrar


Acontece, poetiza,

que teu poema se faz gota

a tempestadear minhas horas

e a fazer explodir flores


Do que não vivemos,

dos sonhos que tivemos.

Ah, o nosso futuro inchegado.

Ah, as vontades inconsumadas.

Explode a flor da saudade

da minha dela proteção.


Na ânsia de gota ser

percebo gota ter

e acabo por reconhecer

que sempre com o orvalho-lágrima

hei de crescer.


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Olhar de recreio

Antes fostes monumental.
Lembro ainda como era
acordar disposto
a passar o dia inteiro
sem pensar em outra coisa.

Na carta, revelar
o cheiro guardado
dos poucos encontros,
as declarações e vontades
nunca concretizadas.

Como era bom te levar
para os pensamentos sonhadores
de quem pensa antes de dormir.

Como era bom te levar
para todos os cantos
em rabiscos e tentativas
de poesias infindas.

Bons tempos, os de garoto
que não quer mais nada
senão aquela que faz
seu coração bater mais forte
só por ter correspondido
os olhares da hora do recreio.

Amar era especular
Acreditar, mesmo sem saber
o que deveria fazer
ao ouvir um "sim".
Era ficar bobo
com qualquer reciprocidade
singela manifestada

Parece que foi ontem,
tantos anos se passaram
e a vida teima
em me fazer abrir a gaveta
para ler o que tu me escrevestes
naqueles dias.

Tenebrosos dias
que saístes da minha vida.

E se hoje não te busco,
é pra não perder o sonho.
De um dia te encontrar
num recreio da vida,
e te ver me olhar.
Daquele jeito
que só você soube fazer.