terça-feira, 30 de setembro de 2008

Sapatos nos fios.

Hoje vi um par de sapatos amarrados pendurados a um cabo de energia elétrica. Me lembrei de quando era garoto e me questionava o que acontecia com aqueles calçados. Tentava imaginar o momento exato no qual eles se prenderam no fio. As proposições eram inúmeras, mas a principal tese era de que alguém fizera tal crueldade com o intuito de sacanear o dono dos calçados. Provocado por ódio repentino, vontade de vingança, sei lá.

Um belo dia, Afonso voltava do colégio, quando, a uns 30 metros de casa, avistou Marcão. Ele tinha evitado a briga por 2 dias inteiros, mas dessa vez, Marcão parecia determinado a acertar as contas com o frangote, Afonso. O menino franzino, fez que não viu o valentão e tentou entrar em casa. Marcão então passou a interrogá-lo em prol do acerto de contas. Eis que surge, da esquina – rindo enquanto conversava com os amigos, Jorge. O irmão mais velho de Afonso já tinha avisado a Marquinhos: “Se mexer com o meu irmão de novo, vai voltar descalço para casa.” Quando avistou a situação, cumpriu a promessa. Afonso, depois do ocorrido, passou a rir sempre que voltava da escola, ao ver o novo adereço da sua rua e lembrar que o valentão voltara para casa descalço naquele dia. E Marcão, passou a roubar sapatos dos mais novos para jogar nos fios.

Essa teoria era fraca demais e não me convencia. Tanto que comecei a imaginar situações diversas. Meninos não têm dinheiro mas ainda assim gostam de apostar.

O jogo da Rua de cima contra a de baixo foi marcado com antecedência. Os times, mais uma vez, disputavam a final do campeonato do condomínio. João, o artilheiro do seu time, acordara às 8 e 30 do sábado – dia do jogo. Quando chovia nos fins de semana, costumava dormir até mais tarde. Mas no dia do jogo ele não conseguiu enrolar muito tempo na cama. Levantou e foi sentar na varanda protegida para apreciar os 3 pares de chuteira presos no fio da sua rua. Na hora do jogo, não pensava em outra coisa, queria selar a vitória com o simbólico ato que marcava os campeonatos do condomínio. A aposta era clara, o time perdedor escolhe um – geralmente o fracasso do dia – para ter as suas chuteiras perduradas – com direito a metáfora e gozações - pelo outro time. Aquele não era o dia de João. Além de ver o time perder, foi elencado como o pior do dia. Nada pôde fazer além de virar as costas para o ato e voltar para casa descalço na lama.

Sapatos nos fios devem ter algum caráter simbólico. No caso anterior, era motivo de orgulho e de vergonha. Mas certa vez cheguei a pensar que sapatos em fios poderiam significar algo mais complexo. Alguma demarcação que fosse necessária.

A polícia subiu no morro de novo. As pipas foram arriadas e um breve silêncio foi gerado por gente que sabia o que estava acontecendo. Maria ouviu de casa o estalar de sandálias do menino que corria para pegar os fogos de artifício. Então, como de costume, usou os dedos indicadores para proteger os tímpanos. Findo o escarcéu, agiu sistematicamente. Botou os garotos para dentro, trancou a porta e buscou abrigo em baixo da cama rezando para que não arrombassem novamente a única porta da casa. A polícia buscava o chefe do tráfico, que na noite anterior, matara um homem de farda. Não deu tempo nem para os soldados ouvirem os fogos, a polícia subiu com tudo. Genocídio. Apostos, estavam os homens do comando rival. Sabendo da fragilidade, agiram assim que os da lei desceram o morro. - “A boca tá tomada, manda trazê os presunto pra cá”. Os garotos de dona Maria foram uns dos que ajudaram a jogar os pisantes dos traficantes nos fios do asfalto. Depois disso, todos das redondezas sabiam do ocorrido.

Sinistro pensar que aqueles pendurados representavam cadáveres. Não gostava dessa não, era macabra demais. Pensava em tanta coisa, Aliens, golpe das companhias de luz, etc. Preferia pensar que tudo não passava de uma idiota maneira de diversão. Afinal, nunca vi sapato no lixo, nem soube de alguém que reciclasse sapatos. Tirando os sapateiros, é claro. Mas remendos não são uma possibilidade infinita, logo, chega uma hora na vida de qualquer sapato, que ele há de ser jogado a algum fio. E é provável que isso aconteça em algum lugar que não tenha muitos vídeo-games, vale ressaltar. Porque convenhamos, jogar sapatos aos fios deve ser algo bem divertido.

Os meus a minha mãe dizia que iria doar, sempre suspeitei da cara de felicidade que ela fazia. Não podia estar contente daquele jeito por estar indo fazer caridade. Quem sabe um dia ela joga vídeo-game comigo, ou me chama para doar algum sapato velho...