sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A Velha Caixa de Lembranças Antigas

Levantou na noite, acendeu a luz do corredor, desceu as escadas cambaleante e pôs se a passar um café. Não havia motivos concretos para levantar naquela hora, mas ele estava preocupado. A semana passada havia sido perfeita. Um novo emprego, uma família feliz, e uma linda mulher deitada a cama. Caminhava assim, para uma bela vida ao estilo norte-americano. Só esta questão o incomodava, não saber o que o fazia sentir-se tão preocupado. Até que na noite passada decidira beber.
Beber até que um transe o iluminasse e fizesse transbordar o seu mais sincero sentimento. Trancou-se no escritório - disse à mulher que trabalharia até tarde - e com uma garrafa de uísque começou a escrever. As frases sobrepunham-se sem fazer sentido algum: "Querer descobrir o que quero"; "Ah, quando tinha elasticidade"; "ah, os tempos de Volta Redonda". Decidido de que seu problema era da idade, quis abrir a velha caixa de lembranças antigas. A nostalgia fazia o Uísque parecer água e as lágrimas escorrerem de maneira sutil. Sem soluços nem tristeza aparente, olhava para fotos e cartas apenas com o sorriso bobo de quem quer fazer parte de algo. Sentado no chão, parecia um menino que prepara um trabalho escolar com todas aquelas fotos e recortes espalhados pelo tapete. À sua maneira, organizou tudo. Sentou novamente na cadeira confortável e observou as palavras soltas - agora tortas - que tinha esboçado. Embriagado, leu: "Querer ela de volta". As palavras se alinhavam perfeitamente e o faziam perder alguns minutos olhando para o nada. Levantou na noite, acendeu a luz do corredor, desceu as escadas cambaleantemente e pôs se a passar um café. Não havia motivos concretos para levantar naquela hora, mas ele estava preocupado...