sábado, 30 de agosto de 2008

A tarde é infinita e o sentimento chega a ser quase simples. Estar só. Parece que foi ontem que ela entrou no meu quarto abrindo as janelas, o sol batia na cara e eu ouvia a senhora a cantar: "acorda maria que é dia, o sol já raiou. Os passarinhos fizeram um ninho na janela do seu bangalô". Eu brigava, não gostava. Ah, se pudesse voltar no tempo. Dói demais saber que hoje, por mais que eu cante, ela não acordará.

Há meses ela tinha trocado o discurso. Antes pedia a Deus que a levasse logo, dizia não aguentar mais a saudade dos tantos que passaram em sua vida. Agora, depois de completar 80, queria que viessem outros mais. Há tempos não a via tão bem, tão cheia de vida. Subia e descia as escadas quando desse na telha, parece que o certo é que ela fosse mesmo em felicidade. Com ela aprendi a sentir saudade, mas não sabia que a pior lição viria agora. Aqui restam olhos vermelhos e a vontade de por ela ser acordado novamente. Ouvir de novo o "como cresceu", ver nos olhos cansados, o orgulho. Eu não me lembro da existência de outra pessoa que sentia orgulho só de me ver. Por ela eu não precisava fazer nada, só estar ali.

Semana passada, parecia pressentir. "Toma filho, leva esse 'senhor são buda'. Quando der, bota algumas moedinhas em baixo dele que ele gosta, faz aumentar o dinheiro." Disse enquanto procurava embrulho qualquer para guardar a imagem. Não queria que outros netos vissem o "presente". Depois, descendo as escadas disputadas com cachorros, disse:"pelo menos agora já tem uma lembrança da vovó". Devia fingir não saber que as minhas lembranças dela eram sem fim.

Lembro da felicidade expressa por Altemar Dutra no volume máximo. A velha vitrola sempre denunciava o seu estado de espírito. Quando feliz, também tocava "índia". Lembranças, saudades; a música se perpetua transmitindo esses sentimentos hereditariamente. Ouço e lembro da pequena senhora que cantava imponente a olhar para o quintal. Parecia voltar no tempo, reviver amores da época de beleza plena. Sempre vaidosa, se rendia a quem fizesse algum elogio ao quadro de mocidade que nunca deixou a sala. Hoje conforta saber que, entre amigos, está mais bela do que na tal fotografia. As músicas dela que para mim sempre foram chatas, hoje são ouvidas - exaustivamente repetidas - da mesma forma que ela fazia. "índia a sua imagem sempre comigo vai/ dentro do meu coração". Impossível não pensar em como vai ser ver Roberto Carlos cantar no especial de fim de ano da Globo.

Viver sem as orações que ela fazia por mim todas as noites. As lembranças são muitas, e com certeza me farão chorar muitas vezes mais. Hoje, a tarde infinita vira noite, e a vida continua. Agora, antes de dormir, sou eu que rezo por ela.