quinta-feira, 31 de julho de 2008

Reis dos Céus

- Corre, Juca. Vai cair na rua.

- Vai você, vai você! - disse Juca que descia a escada estreita com mais cuidados do que o normal pois usava os chinelos do pai. Juca tinha 8 anos e o pai calçava 42. Descalço no chão ele não pisava, ainda mais fora de casa.

Beto atravessou o quintal como uma flecha. As passadas de menino, de tão rápidas, mal podiam ser ouvidas. Mesmo assim a mãe gritou: - Não corre, menino!!! ah, essas crianças - golada no café - te contei da vez que ele quebrou o braço no restaurante? - disse voltando as atenções à visita que recebia.

O garoto corria sem tirar os olhos da pipa que caia com movimentos de pluma. Abriu o portão que dava para a rua e continuou correndo, nesse momento já avistava os concorrentes. Os outros garotos sempre paravam quando viam que Beto estava atrás da mesma pipa que eles. "O Beto na corrida é imbatível". Como de costume, Beto não deu nem chances para os outros. Quando chegou ao lugar onde a pipa cairia olhou para o portão de casa, lá já estava Juca com os chinelos grandes e olhar de torcida. Beto voltou a olhar para cima arqueando os braços com um sorriso de vitória. Dessa vez ele não achou nada além de braços fortes e negros de alguém que devia ter o dobro da sua altura. O homem não precisou se esforçar para pegar a pipa antes de Beto, que olhou com cara de "já era" para o irmão. Juca abaixou a cabeça e entrou deixando o portão encostado.

- Moço, por favor. Devolve a pipa ai, é do meu irmão. Ele gosta muito dela.

O homem olhou para a pipa que estava cheia de rabiscos: "Celma velha coroca", "Glaucia macumbeira", "Seu pedro vovô brocha". Além do nome da pipa: "Power ranger vermelho"; No meio dos insultos a vizinhos que não gostavam de devolver pipas, uma inscrição chamou a atenção do homem.

- Quem é Juca?

- É o meu irmão.

- "Juca e Beto, Reis dos céus"- leu com tom de deboche.

Beto abaixou a cabeça e pediu mais uma vez.

- Por favor - com toda a tonalidade de criança pidona que sempre funcionava com a mãe.

- Aí, menor. Voada é voada. Já era, essa daqui é minha.

O garoto tinha a língua afiada e não hesitou em soltar um "desse tamanho soltando pipa..." depois que o homem já tinha dado as costas. O homem chegou a parar, mas quando olhou para trás o moleque já estava longe. Nada pôde fazer além de dar um sorriso de canto de boca.

Beto voltou para casa e encontrou Juca sentado atrás do portão.

- Ele devolveu?

- Não.

Beto apoiou a mão nos ombros do irmão e eles seguiram novamente em direção ao terraço. O silêncio perdurou até que Beto falou:

- Aquela pipa era um lixo, puxava sempre pra direita...Nem adiantou rasgar do lado... Aí, tem pipa branca aí? Ouvi dizer que se passar óleo de cozinha ela fica transparente, imagina só, pipa fantasma... Ninguém te vê, mas aí a gente bota uma rabiola colorida porque também não podemos perdê-la né? "Power ranger vermelho", nome de frutinha. Podia pelo menos ser o Preto, po...

Você gostava dela né?

- É...

- Ih, aquele cara tinha a maior cara de pato. Deixa só ele botar no alto de novo, corto e aparo facinho. Vou descobrir o nome dele para a gente zoar na próxima.