quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

E tu?

E tu, sabes bem o que é
ser atingido por flecha certeira?
Ora se não daquela vez de outrora,
um dia amargará a dor do não saber
de onde vêm os calafrios. Prepara-te!

Há de sentir o gaguejar de pensamentos
que invade o peito e chega às pálpebras
que insistirão em fechar a cada inspiração.
E por tal sensação, inventar um vício
de fechar os olhos só para fazer emergir
de novo a imagem de tal deslumbramento.

Há de não saber sequer o que deves pensar,
e o imbróglio feito nas suas caraminholas
servirá de nada além de passatempo
para a hora do “então”, bem como para afirmar
tudo o que já saberás estar acontecendo contigo.

Há de tudo fazer sem nem mesmo pesar.
De inventar! Jeitos e maneiras
para coisas antes fúteis ou irrisórias.
Andar, para frente, sem medo de pisar
em solos nunca antes sequer vistos.
De se arrepender de se arrepender,
no vai e vem de decisões que no fim
serão todas cúmplices do “acontecer”
que chegará sem que tu tenhas ciência.

Há de chegar o dia do encontro,
no qual todas as palavras medidas e arquitetadas
cairão por força do gesto maior.
Verás que o tão esperado ósculo
passará feito tufão.
De beleza ímpar e inestimável,
que trará a dor da saudade minutos depois.
E te deixará – para sempre –
Com o arrependimento de ter os olhos tido fechado.

O teu pensar será dela, e as tuas trêmulas
mãos só servirão para servir à...
Eis que me vem algo!
Como poderás tu, ao ler isso,
saber que se fechar os olhos
te arrependerás e não tentarás abrí-los?

Faças me um favor!
Esqueças tudo o que te foi passado!
Lembra-te apenas de viver
e um dia descobrirás
que a saudade e o arrependimento
serão teus futuros companheiros de passatempo.
Enquanto escreverás coisas de amor.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

De olhos fechados

À noite, quando deitas
e teus lindos olhos fechas
Sabes que é minha,
a altiva voz que te clama

E sabes, que se tentas, podes ver-me.
A, por ti, sem rumo vagar
nos umbraos da vida
Sem pensar em te esperar,
a querer te preocupar.

Vê-me implorar-te a cada esquina
Sabes que teu corpo, peço!
Pois a cada só manhã
Sei que quando sinto o teu cheiro
Tu,também, meu cheiro sentes

E quando insistimos em pensarmo-nos
Vêmos duas amantes almas
Que, separadas bruscamente,
Sem culpa alguma do destino
Teimam em suspenderem-se

A bailar em um matar de saudade
Subversivo e inconsciente
Incerto e incoerente
Que é por frequente rompido abruptamente
Por estalar de dedos quaisquer
Que nos traz devolta à vida chorosa

De quem odeia ter de esperar
Aquilo se concretizar
Assim, volta se a levar
Aquela vida de vagar

A tentar abrir cadeados
Sem nunca deixar de chorar
sempre de olhos fechados.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Com sol ou chuva, os meninos adoravam jogar bola no quintal. Os gols eram facilmente demarcados por uma porta e pela entrada de uma rampa mal feita. Havia duas pilastras que funcionavam como zagueiros, e as paredes serviam aos jogadores como fiéis companheiros de time que sempre retribuíam seus passes. Certo dia, um primo chegou ao estádio com a idéia de um campeonato de golzinho individual. Vizinhos foram prontamente convocados e a organização foi feita, gastaram mais tempo sorteando as tabelas do que realmente jogaram. Uniformizados, arranjaram até um porta cd´s da mãe que serviria de troféu para o vencedor. Pediram também para que ela lavasse as roupas naquele momento, achavam que o barulho da máquina dançarina dava impressão de estádio lotado.

O campeonato começado, virou um tormento para a mãe, que vibrava - involuntariamente - a cada gol na porta de casa. Ela gostava tanto da festa que deu um jeito de sair de casa:

- Vocês estão com fome?
- Não, mãe, fecha a porta!
- Ah, mas vão ficar, vou à padaria rapidinho comprar pão para vocês lancharem!

Os jogos duraram até que Beto chutou, com toda a precisão que tinha, a bola para a casa do vizinho. O terreno do lado era uma vila, que geralmente habitava vizinhos legais, que não tinham problemas com devoluções de bolas. A bola só não poderia cair onde caiu. Quebrou a janela da velha mais coroca da rua e fez cada garoto correr para a sua respectiva casa. Beto, Juca e Danilo sobraram e se olharam sem acreditar.

- A minha mãe vai me matar!
- A Dilma vai nos matar!
- Calma, gente. Essa vizinha de vocês não pode ser tão má assim.
- Danilo, você viu se ficou alguém aqui pra nos ajudar?
- Dizem que ela arranca cabeça de pombos pra fazer macumba! Eu é que não entro lá!

Danilo, o primo mais velho tentou acalmar a situação;

- A gente espera a sua mãe chegar, ela pede a bola e paga o vidro. Vocês devem ficar de castigo de qualquer forma por tê-lo quebrado mesmo...
- Não! A mamãe não fala com a Dilma. Desde o dia do incêndio, quando ela brigou com o filho por ter vindo nos ajudar! Se não pedirmos, a bola vai ficar lá pra sempre...

Decidiram então, tocar a campainha da senhora. Tentaram algumas vezes, mas ela não respondia. Beto, então, encostou na porta entreaberta que deslizou fazendo barulho de porta de filme de terror. A sala só era iluminada pelo buraco que a bola havia feito na janela e os fachos de luz eram apenas suficientes para iluminar os rastos que a bola deixara na toalha branca de mesa. Os meninos então descobriram que a bola tinha rumado para a cozinha. Juca quis ficar na sala, se justificou - gaguejando - dizendo que alguém precisava ficar para avisá-los caso a bruxa entrasse pela porta da sala.

Ao entrarem na cozinha, Danilo avistou a bola, que estava parada na porta do suposto quarto de empregada. Juntos, foram pé ante pé até o próximo cômodo da fúnebre casa. Quando encostaram na bola, olharam para cima devagar e ao mesmo tempo. Luzes de velas vermelhas e imagens de santos que eles nunca tinham visto chamavam as suas atenções para um altar estranho. Lá estava ela, estropiada a entoar cânticos estranhos. Os meninos ficaram então, paralisados ao ver que a história dos pombos era verdadeira. Olhavam hipnotizados de medo, até que a velha, ao perceber a estranha presença, virou de pronto lançando um olhar aterrorizante aos meninos.

- Corre!

Saíram da casa mais rápido do que achavam que poderiam aos sons de: "voltem aqui, seus moleques!". Se Juca não fosse arrastado pelo irmão, talvez ficasse lá dentro. Os meninos voltaram para casa e relaxaram como nunca tinham feito antes, as risadas da tarde só foram interrompidas em um único instante. Quando a mãe chegou em casa e perguntou: ", cadê todo o mundo?"

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Minha Commedia dell´arte

Hei de fazer pães
até que a pútrida massa seque
até que esgotem-se todos os olhares
ou até que tudo em um trágico fim termine

pois em cada feiche de luz
de sorriso de colombina
renova-se a esperança de volta
e edoidesse o Pierrot e os pensamentos
de todo o futuro que há de ser presente

O coração corre apertado, so de imaginar
o dia em que todos se sentam à mesa
a provarem do pão, que há tanto esperava por ela.
Mas enquanto isso, faz se da vida, errante pretenção.

Chegado o dia, então. As lembranças da caixa sairão
abri-la antes disso, para mim seria
- de fato - reconhecer
que um dia poderia de ti esquecer

Eu, como pai dos palhaços tristes
espero o carnaval do ano que vem
vislumbro, de tanto prever
o encontro em um baile de máscaras

O reconhecimento do inconfundível único sorriso
que a tanto atormentou minhas pretenções.
Fazer desnecessária a pergunta:"quem é você?"
Hoje distante, sorriso malvado maltrata de novo

A distância é do tamanho da vontade
de te me fazer lembrar e sorrir, colombina.
Mas não fiques triste. O dia há de chegar!
Quando a carta encontrar, deverás lembrar.

De como é ser invadido por esse sentimento
de fazer o que preciso for
por apenas um olhar de frestas de escada
E nada mais fazer, sem antes pensar no que há de ser.
de mim sem você.

domingo, 19 de outubro de 2008

Monólogo Mundo Moderno (por Chico Anysio)



Mundo moderno, marco malévolo, mesclando mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutaias, majestoso manicômio. Meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio - maior maldade mundial.

Madrugada, matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna. Monta matumbo malhado munindo machado, martelo, mochila murcha, margeia mata maior. Manhãzinha, move moinho, moendo macaxeira, mandioca. Meio-dia mata marreco, manjar melhorzinho. Meia-noite, mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua, mas monocórdia mesmice. Muitos migram, macilentos, maltrapilhos. Morarão modestamente, malocas metropolitanas, mocambos miseráveis. Menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo. Metade morre.

Mundo maligno, misturando mendigos maltratados, menores metralhados, militares mandões, meretrizes, marafonas, mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente, modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas.

Mundo medíocre. Milionários montam mansões magníficas: melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, mercedes, motorista, mãos... Magnatas manobrando milhões, mas maioria morre minguando. Moradia meiágua, menos, marquise.

Mundo maluco, máquina mortífera. Mundo moderno, melhore. Melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos. Maldito mundo moderno, mundinho merda.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Galopante


O sol chegava na metade da sua jornada na cidade da terra amarela. Dona Geninha saiu de sua casa soltando fogo pelas ventas, a pressa a fazia chutar os galos e galinhas do quintal. Resmungava e reclamava de tudo, as gordas pernas tentavam andar mais rápido enquanto eram freiadas pela saia-avental. Dobrou a esquina, entrou em um galpão e gritou: - Antonio! - Nada ouviu além do eco da sua voz no salão vazio. - Antonio!!! - insistiu. Atravessou o salão e encontrou o menino na rua detrás.

- Jogando bola?
- Desculpa, madrinha, eu perdi a hora.
- Anda, vamos! Ainda tem muita coisa pra trazer pra cá - e fez questão de levar o garoto até a sua casa pelas orelhas.

A cozinha de Dona Geninha tinha se transformado em uma confeitariaria. Cozinheira de mão cheia, ficou encarregada de promover a comilança do casório da filha. O irmão de criação da noiva, Tunico, devia levar os quitutes para o salão onde aconteceria a festa. Quando entrou na cozinha, o menino esfregou a orelha inchada enquanto olhava maravilhado para todas as guloseimas que teria de carregar. A vontade de fugir para continuar a jogar futebol sumiu subtamente, frente a possibilidade de provar de tudo nas idas e vindas do serviço. Assim o fez, comeu de tudo, e de tanto se empanturrar, quase não conseguiu levar a última bandeja.

A noiva se arrumava do outro lado da cidade, e estava mais feliz do que estaria se não soubesse que o seu casamento não seria um evento normal. As ajudantes achavam que aquela euforia fosse normal, coisa de casamento, e tratavam de tentar acalmá-la:

- Tudo vai dar certo, menina. O seu casamento vai ser lindo, o mais lindo da história da cidade.
- Será que vai? - respondeu a noiva, com um estranho tom cético.
- Mas é claro! - disse outra - Ah, a minha menina, ontem era tão pequenina.
- Pára, Maria, deixa disso. E vamos logo, a noiva se atrasa mas nem tanto - disse a noiva, assustando as ajudantes com toda aquela determinação.

O carro velho, o único da cidade, conduzia a noiva para a igreja. O motorista , pomposo, agia como um de limousine - até um quepe tratou de arranjar. A noiva olhava para aquilo e ria das ostentações forjadas da família. Não demorou muito para que chegassem à porta da humilde igreja, o pai fez questão de abrí-la como manda o figurino. Aliás, que figurino! A farda branca era sinonimo de nobreza, e o militar fez questão de esfregar todas as medalhas até deixar cada uma brilhando como nova.

Até a noite anterior, ela não podia imaginar tal cena acontecer. Não queria casar com um fidalgo, mas depois do ocorrido na véspera do casamento, fez questão de entrar feliz. O sorriso aumentava a cada passo, e o altar foi visto por ela como nunca, tudo tomava um especial caráter de despedida que a fazia gostar de tudo o que um dia odiara. Pensou se poderia sentir saudade, mas ao olhar para a face de Dona Dulce - a fofoqueira da cidade - teve certeza de que não.

E tudo ocorreu como o combinado da noite passada. Ao questionamento do padre: - Se existe alguém que tenha algo a dizer, diga agora ou... - Ele entrou de cavalo e tudo na igreja. Imponente, não quis ligar para nada. Chegou ao altar, puxou a noiva para a garupa do cavalo e fugiu, galopante. A expressão do padre silenciado demonstrava o sentimento de todos os presentes. O pai, vermelho; A mãe, chorando; e a maioria, comemorando. Ela podia ter fugido na noite anterior, mas não; fez questão fazer na frente de todos e demonstrar a sua renúncia a tudo aquilo em prol de um bem maior. A cidade nunca mais foi a mesma, todos gostavam de lembrar da face feliz da noiva abraçando o seu amado no cavalo enquanto galopavam sem rumo.

A festa não aconteceu, mas as pessoas fizeram questão de ir para o salão só para comer as delícias da mãe da noiva. Dona Geninha não, foi pra casa chorar. E quase matou o menino que insistia em perguntar sobre os detalhes do ocorrido:

- Mas e o delegado, não fez nada?
- Ele tava mais chocado que o padre, já não disse?
- E Dona Dulce? Essa deve ter ficado feliz...
- Pára, menino! Se não tivesse comido tanto não teria passado o casório no banheiro e teria visto tudo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sentiu o tempo parar, enquanto tudo girava. Os infinitos segundos faziam milhões de pensamentos chegarem ao mesmo tempo em que davam lugar a outros. Finalmente soube como era o que as pessoas que escaparam da morte tentavam explicar. Percebera que aquela história de que a sua vida passa na sua frente não era como um filme - antes ela pensava que se veria pequena -, naquele dia soube que a vida que passava era a presente.
Viu seus filhos deitados nas suas camas; viu cada cômodo da casa que conquistara com muito suor; viu amigos, todos que um dia fizeram-na sentir algo; pensou em cada questão que a fazia pensar nos últimos tempos. Olhou para o lado. A velocidade do movimento da cabeça, quando comparada com a de seus pensamentos, chegava a ser angustiante de tão devagar. O movimento que na realidade se realizava em uma fração de segundos, dava tempo suficiente para ela pensar em tudo antes do "não pensar" provocado pela visão que teve do marido. Os olhos dele tinham se fechado desde o primeiro impacto, segundos antes, também tivera os seus pensamentos de últimos instantes.
Depois de capotar 7 vezes, o automóvel parou na contra-mão. Ela não viu mais nada senão a tal luz branca tão mencionada pelos que dela escaparam, o caminhoneiro nada pode fazer. Desceu do caminhão com o telefone na mão, já chamando a emergência. Do retrovisor da ambulância, o socorrista viu a imagem de um homem desolado sentado na beira da estrada.
Hoje, ela completa 63 anos de idade. Agora eram os filhos que a viam deitada na cama, e mesmo depois de 30 anos, para eles aquilo era tão subjetivo quanto os pensamentos que ela teve deles há 30 anos atrás. 30 anos na cama, sem esboçar nenhum movimento. Sustentava a expressão triste de quem não muda a visão por não querer pensar em outra coisa. Há quem diga que ela sabe de tudo o que acontece ao seu redor, talvez por isso, o filho mais velho se sinta arrependido de ter dado a notícia, naquele quarto, aos mais novos, do falecimento to pai.


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Leva o casaco!

Hoje, deixo o guarda-chuva em casa
Não há motivos para não querer me molhar
E o casaquinho, não sai mais do armário

A vida segue e não parece querer te impor nada
O que me faz esquecer do amanhã, com clichês.
Afinal, os dentes do juízo, arranquei de uma vez

O que me faz querer voltar
É o mesmo que faz querer ter
De volta, tudo do que um dia reclamei

Amanhã, levarei o guarda-chuva com um sorriso
Ela só queria que eu não me molhasse
E o armario todo passará a andar com o casaquinho

sábado, 4 de outubro de 2008

Caminhos impostos

A casa estava fria.
Naquele dia, nem se o sol quisesse sair
conseguiria iluminar
os cantos dos húmidos cômodos.

A mulher e o castiçal
as mãos tremulas e cheias de rugas
morenas denunciavam
uma vida de baixo do sol.

Testanto o solo
de terra batida da palhoça,
ela caminhava em direção ao quarto.

O seu amor, que jazia na cama
esfriava ainda mais o ambiente.
Castiçal na cabeceira e copo d´agua na mão.

- Toma! A água te fará melhor.
Toma!
Quis gritar, ordenar!
Queria que ele acordasse.
Nunca levantara a voz para ele
E dessa vez não foi diferente

Por alguns instantes
se arrependeu da vida formal
de mulher que serve o marido.
Dessa vez não conteve
a vontade de abraçar
tão forte de cansar

Era tarde demais,
Ela nunca veria a reação
Do marido de tantos anos
Ao saber o tanto que ela o amava
E constatar que o casamento fora verdadeiro

Saindo do quarto, deu uma última olhada
Para acreditar e foi sentar no quintal.
Mãos na cabeça que desciam para os olhos
E balançava para frente e para trás.

A velha senhora foi acudida pelos vizinhos
Que trataram de tudo.
Ela, sozinha andou até as docas
Desatou o no do barco
O empurrou para o oceano
E disse soluçando: "vai, encontra o teu caminho.
O meu há de sempre ser aqui,
A velar tudo o que um dia me fez feliz."

Fez questão de prometer
Mais uma vez
Que nunca mais amaria alguém.

Sertão na minha chuva

Este foi escrito em resposta a outro (chuva no meu sertão) que achei estupendo ao ponto de tê-lo aqui postado. A autora, Bárbara Araújo, demonstra sentimentos por outrem com tal idoneidade que se faz digna de referência. Eu, humildemente, respondi com remorsos próprios. Respeita-se, nos escritos que se seguem, a parcialidade proposta. Quanto ao sincretismo de pensamentos, cabe ao leitor destacar as intersecções presentes em cada um deles. O poema que se segue foi contemporâneo ao outro, não me perguntem porque cargas d´agua me deu a vontade de tê-lo posto aqui agora.


Sinta-se artista

daqueles que dão autógrafo

e ouvem o tempo todo

"gosto do seu poema".


Quero dizer, poetiza

"gosto do seu poema"

a ponto de o querer para mim

por querer ser gota

e em certo solo seco

penetrar mas fundo que chuvaréu.


Vício do utópico,

eterna vontade,

e viver a sonhar

daquilo se materializar.

E quem sabe ver

certo caos se instaurar


E ao sonhar,

perder o chão,

viver o que poderia ter sido

por instantes ver o chão chegar

o vão seco do solo se abrir

a me temer entrar


Acontece, poetiza,

que teu poema se faz gota

a tempestadear minhas horas

e a fazer explodir flores


Do que não vivemos,

dos sonhos que tivemos.

Ah, o nosso futuro inchegado.

Ah, as vontades inconsumadas.

Explode a flor da saudade

da minha dela proteção.


Na ânsia de gota ser

percebo gota ter

e acabo por reconhecer

que sempre com o orvalho-lágrima

hei de crescer.


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Olhar de recreio

Antes fostes monumental.
Lembro ainda como era
acordar disposto
a passar o dia inteiro
sem pensar em outra coisa.

Na carta, revelar
o cheiro guardado
dos poucos encontros,
as declarações e vontades
nunca concretizadas.

Como era bom te levar
para os pensamentos sonhadores
de quem pensa antes de dormir.

Como era bom te levar
para todos os cantos
em rabiscos e tentativas
de poesias infindas.

Bons tempos, os de garoto
que não quer mais nada
senão aquela que faz
seu coração bater mais forte
só por ter correspondido
os olhares da hora do recreio.

Amar era especular
Acreditar, mesmo sem saber
o que deveria fazer
ao ouvir um "sim".
Era ficar bobo
com qualquer reciprocidade
singela manifestada

Parece que foi ontem,
tantos anos se passaram
e a vida teima
em me fazer abrir a gaveta
para ler o que tu me escrevestes
naqueles dias.

Tenebrosos dias
que saístes da minha vida.

E se hoje não te busco,
é pra não perder o sonho.
De um dia te encontrar
num recreio da vida,
e te ver me olhar.
Daquele jeito
que só você soube fazer.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Sapatos nos fios.

Hoje vi um par de sapatos amarrados pendurados a um cabo de energia elétrica. Me lembrei de quando era garoto e me questionava o que acontecia com aqueles calçados. Tentava imaginar o momento exato no qual eles se prenderam no fio. As proposições eram inúmeras, mas a principal tese era de que alguém fizera tal crueldade com o intuito de sacanear o dono dos calçados. Provocado por ódio repentino, vontade de vingança, sei lá.

Um belo dia, Afonso voltava do colégio, quando, a uns 30 metros de casa, avistou Marcão. Ele tinha evitado a briga por 2 dias inteiros, mas dessa vez, Marcão parecia determinado a acertar as contas com o frangote, Afonso. O menino franzino, fez que não viu o valentão e tentou entrar em casa. Marcão então passou a interrogá-lo em prol do acerto de contas. Eis que surge, da esquina – rindo enquanto conversava com os amigos, Jorge. O irmão mais velho de Afonso já tinha avisado a Marquinhos: “Se mexer com o meu irmão de novo, vai voltar descalço para casa.” Quando avistou a situação, cumpriu a promessa. Afonso, depois do ocorrido, passou a rir sempre que voltava da escola, ao ver o novo adereço da sua rua e lembrar que o valentão voltara para casa descalço naquele dia. E Marcão, passou a roubar sapatos dos mais novos para jogar nos fios.

Essa teoria era fraca demais e não me convencia. Tanto que comecei a imaginar situações diversas. Meninos não têm dinheiro mas ainda assim gostam de apostar.

O jogo da Rua de cima contra a de baixo foi marcado com antecedência. Os times, mais uma vez, disputavam a final do campeonato do condomínio. João, o artilheiro do seu time, acordara às 8 e 30 do sábado – dia do jogo. Quando chovia nos fins de semana, costumava dormir até mais tarde. Mas no dia do jogo ele não conseguiu enrolar muito tempo na cama. Levantou e foi sentar na varanda protegida para apreciar os 3 pares de chuteira presos no fio da sua rua. Na hora do jogo, não pensava em outra coisa, queria selar a vitória com o simbólico ato que marcava os campeonatos do condomínio. A aposta era clara, o time perdedor escolhe um – geralmente o fracasso do dia – para ter as suas chuteiras perduradas – com direito a metáfora e gozações - pelo outro time. Aquele não era o dia de João. Além de ver o time perder, foi elencado como o pior do dia. Nada pôde fazer além de virar as costas para o ato e voltar para casa descalço na lama.

Sapatos nos fios devem ter algum caráter simbólico. No caso anterior, era motivo de orgulho e de vergonha. Mas certa vez cheguei a pensar que sapatos em fios poderiam significar algo mais complexo. Alguma demarcação que fosse necessária.

A polícia subiu no morro de novo. As pipas foram arriadas e um breve silêncio foi gerado por gente que sabia o que estava acontecendo. Maria ouviu de casa o estalar de sandálias do menino que corria para pegar os fogos de artifício. Então, como de costume, usou os dedos indicadores para proteger os tímpanos. Findo o escarcéu, agiu sistematicamente. Botou os garotos para dentro, trancou a porta e buscou abrigo em baixo da cama rezando para que não arrombassem novamente a única porta da casa. A polícia buscava o chefe do tráfico, que na noite anterior, matara um homem de farda. Não deu tempo nem para os soldados ouvirem os fogos, a polícia subiu com tudo. Genocídio. Apostos, estavam os homens do comando rival. Sabendo da fragilidade, agiram assim que os da lei desceram o morro. - “A boca tá tomada, manda trazê os presunto pra cá”. Os garotos de dona Maria foram uns dos que ajudaram a jogar os pisantes dos traficantes nos fios do asfalto. Depois disso, todos das redondezas sabiam do ocorrido.

Sinistro pensar que aqueles pendurados representavam cadáveres. Não gostava dessa não, era macabra demais. Pensava em tanta coisa, Aliens, golpe das companhias de luz, etc. Preferia pensar que tudo não passava de uma idiota maneira de diversão. Afinal, nunca vi sapato no lixo, nem soube de alguém que reciclasse sapatos. Tirando os sapateiros, é claro. Mas remendos não são uma possibilidade infinita, logo, chega uma hora na vida de qualquer sapato, que ele há de ser jogado a algum fio. E é provável que isso aconteça em algum lugar que não tenha muitos vídeo-games, vale ressaltar. Porque convenhamos, jogar sapatos aos fios deve ser algo bem divertido.

Os meus a minha mãe dizia que iria doar, sempre suspeitei da cara de felicidade que ela fazia. Não podia estar contente daquele jeito por estar indo fazer caridade. Quem sabe um dia ela joga vídeo-game comigo, ou me chama para doar algum sapato velho...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A Velha Caixa de Lembranças Antigas

Levantou na noite, acendeu a luz do corredor, desceu as escadas cambaleante e pôs se a passar um café. Não havia motivos concretos para levantar naquela hora, mas ele estava preocupado. A semana passada havia sido perfeita. Um novo emprego, uma família feliz, e uma linda mulher deitada a cama. Caminhava assim, para uma bela vida ao estilo norte-americano. Só esta questão o incomodava, não saber o que o fazia sentir-se tão preocupado. Até que na noite passada decidira beber.
Beber até que um transe o iluminasse e fizesse transbordar o seu mais sincero sentimento. Trancou-se no escritório - disse à mulher que trabalharia até tarde - e com uma garrafa de uísque começou a escrever. As frases sobrepunham-se sem fazer sentido algum: "Querer descobrir o que quero"; "Ah, quando tinha elasticidade"; "ah, os tempos de Volta Redonda". Decidido de que seu problema era da idade, quis abrir a velha caixa de lembranças antigas. A nostalgia fazia o Uísque parecer água e as lágrimas escorrerem de maneira sutil. Sem soluços nem tristeza aparente, olhava para fotos e cartas apenas com o sorriso bobo de quem quer fazer parte de algo. Sentado no chão, parecia um menino que prepara um trabalho escolar com todas aquelas fotos e recortes espalhados pelo tapete. À sua maneira, organizou tudo. Sentou novamente na cadeira confortável e observou as palavras soltas - agora tortas - que tinha esboçado. Embriagado, leu: "Querer ela de volta". As palavras se alinhavam perfeitamente e o faziam perder alguns minutos olhando para o nada. Levantou na noite, acendeu a luz do corredor, desceu as escadas cambaleantemente e pôs se a passar um café. Não havia motivos concretos para levantar naquela hora, mas ele estava preocupado...

sábado, 13 de setembro de 2008

Aquele que escreve os - belos - versos abaixo, me faz sentir orgulho de dizer saber o que é amizade. Relação em três atos - assim como Rodrigo - é de todo, transparente. Me faz pensar e querer viver coisas que há tempos sinto falta.

Relação em três atos.

Com amor, relembro a história,
A busca pela menina
Que marcou esta trajetória.
Primeira Parte:
"O Descarte -
Quando Vênus negou Marte."

Noite confusa, sol chuvoso,
E em seu ouvido
Um sentimento amoroso.
Tentei. Assim o fiz.
Se não tive o que quis,
Não fui de todo infeliz.

Passam-se meses.
Terás, tu, coragem
De negar-me duas vezes?
Segundo Quinhão:
"A Decepção -
O comandante sem batalhão."

Noite fria, ar gelado.
No baile de máscaras
Não ficastes do meu lado.
Sim, errei.
Por que te soltei?
Nunca saberei.

Hesitei, fui fraco.
Mas, quando menos esperava
Surge uma festa de Baco.
Por fim, Terceiro Ato:
"O dia Abstrato -
Fim de um celibato."

Dia perfeito, verdadeiro encanto.
A ti perguntei:
- Farás como Pedro, o Santo?
- Não! Hoje, não!
Com um beijo então,
Selou-se a relação.
Rodrigo Rodrigues

Relação em três atos

Com amor, relembro a história,

A busca pela menina

Que marcou esta trajetória.

Primeira Parte:

“O Descarte -

Quando Vênus negou Marte.”

Noite confusa, sol chuvoso,

E em seu ouvido

Um sentimento amoroso.

Tentei. Assim o fiz.

Se não tive o que quis,

Não fui de todo infeliz.

Passam-se meses.

Terás, tu, coragem

De negar-me duas vezes?

Segundo Quinhão:

“A Decepção -

O comandante sem batalhão.”

Noite fria, ar gelado.

No baile de máscaras

Não ficaste ao meu lado.

Sim, errei.

Por que te soltei?

Nunca saberei.

Hesitei, fui fraco.

Mas, quando menos esperava

Surge uma festa de Baco.

Por fim, Terceiro Ato:

“O dia Abstrato -

Fim de um celibato.”

Dia perfeito, verdadeiro encanto.

A ti perguntei:

- Farás como Pedro, o Santo?

- Não! Hoje, não!

Com um beijo então,

Selou-se a relação.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sem freios

O menino João
sem rumo nem caminho
a andar pela perda
sem destino achar

a sentir na boca
a lágrima a gelar
a deslizar
a fazer soluçar

o menino João
a jogar no caminho
a perder o destino
a rumar para lá

sem medo de ser visto
a rumar sem reparar
a olhar ser olhado
sem querer voltar

O menino João
a lembrar de chorar
a sofrer a vagar
a chorar por lembrar

e na perda, se perder
de tristeza, padecer
no asfalto virar lágrima
de quem nada tinha a ver com aquilo

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Canto do capoeira

Vamos que já tá na hora
O sol faz o dia surgir
Eles se atentam aos matos
Quebrados a nos perseguir

A gruta quer nos proteger
Nós em seus braços deitar
A denúncia da nossa morada
Não nos deixa o grupo alcançar

Lembrar de que eram boatos
Quase nos faz desistir
Lembrei foi Maria que disse
Aquilo era pra ser aqui

Desde pequeno esguio
Nascido para fugir
Mas se me pegam de novo
Não sei o que fazem de mim

Cantando seguimos nos campos
Sem mais relva preferir
O capitão tem cavalos
Mas já não nos acham aqui

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Chuva no meu sertão.

Sem ti, virei um.

Tive que saber andar só
nos solos ariscosdo semi-árido do mundo.
E foi bem.

Natural que os sonhos caiam,
a vida mude,
a gente ande crescido
com a bagagem de tristeza nas costas.

Cresci.
Um só,
mala nas costas.
O semi-árido do mundo
enredando meu coração.

Eis que apareces,
altivo do céu de lugar nenhum
pingando uma gota de dó
que me encharca os olhos,
tempestadeia minhas horas
e me varre o sentido.

Os outros ficam o sendo, só
e eu mal entendo
como a tua gotazinha
penetra meu solo seco
mais fundo que qualquer chuvaréu.

Explode a flor da saudade.
Do que não vivemos,
dos sonhos que tivemos.
Nosso futuro inchegado,
as vontades inconsumadas,
a camaradagem criança,
a tua minha proteção.

A tempestade passada,
fica o orvalho-lágrima
nessa planta que não morre
(não importa o tempo passe)
que tu brotaste em mim.



Bárbara Araújo Machado

sábado, 30 de agosto de 2008

A tarde é infinita e o sentimento chega a ser quase simples. Estar só. Parece que foi ontem que ela entrou no meu quarto abrindo as janelas, o sol batia na cara e eu ouvia a senhora a cantar: "acorda maria que é dia, o sol já raiou. Os passarinhos fizeram um ninho na janela do seu bangalô". Eu brigava, não gostava. Ah, se pudesse voltar no tempo. Dói demais saber que hoje, por mais que eu cante, ela não acordará.

Há meses ela tinha trocado o discurso. Antes pedia a Deus que a levasse logo, dizia não aguentar mais a saudade dos tantos que passaram em sua vida. Agora, depois de completar 80, queria que viessem outros mais. Há tempos não a via tão bem, tão cheia de vida. Subia e descia as escadas quando desse na telha, parece que o certo é que ela fosse mesmo em felicidade. Com ela aprendi a sentir saudade, mas não sabia que a pior lição viria agora. Aqui restam olhos vermelhos e a vontade de por ela ser acordado novamente. Ouvir de novo o "como cresceu", ver nos olhos cansados, o orgulho. Eu não me lembro da existência de outra pessoa que sentia orgulho só de me ver. Por ela eu não precisava fazer nada, só estar ali.

Semana passada, parecia pressentir. "Toma filho, leva esse 'senhor são buda'. Quando der, bota algumas moedinhas em baixo dele que ele gosta, faz aumentar o dinheiro." Disse enquanto procurava embrulho qualquer para guardar a imagem. Não queria que outros netos vissem o "presente". Depois, descendo as escadas disputadas com cachorros, disse:"pelo menos agora já tem uma lembrança da vovó". Devia fingir não saber que as minhas lembranças dela eram sem fim.

Lembro da felicidade expressa por Altemar Dutra no volume máximo. A velha vitrola sempre denunciava o seu estado de espírito. Quando feliz, também tocava "índia". Lembranças, saudades; a música se perpetua transmitindo esses sentimentos hereditariamente. Ouço e lembro da pequena senhora que cantava imponente a olhar para o quintal. Parecia voltar no tempo, reviver amores da época de beleza plena. Sempre vaidosa, se rendia a quem fizesse algum elogio ao quadro de mocidade que nunca deixou a sala. Hoje conforta saber que, entre amigos, está mais bela do que na tal fotografia. As músicas dela que para mim sempre foram chatas, hoje são ouvidas - exaustivamente repetidas - da mesma forma que ela fazia. "índia a sua imagem sempre comigo vai/ dentro do meu coração". Impossível não pensar em como vai ser ver Roberto Carlos cantar no especial de fim de ano da Globo.

Viver sem as orações que ela fazia por mim todas as noites. As lembranças são muitas, e com certeza me farão chorar muitas vezes mais. Hoje, a tarde infinita vira noite, e a vida continua. Agora, antes de dormir, sou eu que rezo por ela.


quinta-feira, 31 de julho de 2008

Reis dos Céus

- Corre, Juca. Vai cair na rua.

- Vai você, vai você! - disse Juca que descia a escada estreita com mais cuidados do que o normal pois usava os chinelos do pai. Juca tinha 8 anos e o pai calçava 42. Descalço no chão ele não pisava, ainda mais fora de casa.

Beto atravessou o quintal como uma flecha. As passadas de menino, de tão rápidas, mal podiam ser ouvidas. Mesmo assim a mãe gritou: - Não corre, menino!!! ah, essas crianças - golada no café - te contei da vez que ele quebrou o braço no restaurante? - disse voltando as atenções à visita que recebia.

O garoto corria sem tirar os olhos da pipa que caia com movimentos de pluma. Abriu o portão que dava para a rua e continuou correndo, nesse momento já avistava os concorrentes. Os outros garotos sempre paravam quando viam que Beto estava atrás da mesma pipa que eles. "O Beto na corrida é imbatível". Como de costume, Beto não deu nem chances para os outros. Quando chegou ao lugar onde a pipa cairia olhou para o portão de casa, lá já estava Juca com os chinelos grandes e olhar de torcida. Beto voltou a olhar para cima arqueando os braços com um sorriso de vitória. Dessa vez ele não achou nada além de braços fortes e negros de alguém que devia ter o dobro da sua altura. O homem não precisou se esforçar para pegar a pipa antes de Beto, que olhou com cara de "já era" para o irmão. Juca abaixou a cabeça e entrou deixando o portão encostado.

- Moço, por favor. Devolve a pipa ai, é do meu irmão. Ele gosta muito dela.

O homem olhou para a pipa que estava cheia de rabiscos: "Celma velha coroca", "Glaucia macumbeira", "Seu pedro vovô brocha". Além do nome da pipa: "Power ranger vermelho"; No meio dos insultos a vizinhos que não gostavam de devolver pipas, uma inscrição chamou a atenção do homem.

- Quem é Juca?

- É o meu irmão.

- "Juca e Beto, Reis dos céus"- leu com tom de deboche.

Beto abaixou a cabeça e pediu mais uma vez.

- Por favor - com toda a tonalidade de criança pidona que sempre funcionava com a mãe.

- Aí, menor. Voada é voada. Já era, essa daqui é minha.

O garoto tinha a língua afiada e não hesitou em soltar um "desse tamanho soltando pipa..." depois que o homem já tinha dado as costas. O homem chegou a parar, mas quando olhou para trás o moleque já estava longe. Nada pôde fazer além de dar um sorriso de canto de boca.

Beto voltou para casa e encontrou Juca sentado atrás do portão.

- Ele devolveu?

- Não.

Beto apoiou a mão nos ombros do irmão e eles seguiram novamente em direção ao terraço. O silêncio perdurou até que Beto falou:

- Aquela pipa era um lixo, puxava sempre pra direita...Nem adiantou rasgar do lado... Aí, tem pipa branca aí? Ouvi dizer que se passar óleo de cozinha ela fica transparente, imagina só, pipa fantasma... Ninguém te vê, mas aí a gente bota uma rabiola colorida porque também não podemos perdê-la né? "Power ranger vermelho", nome de frutinha. Podia pelo menos ser o Preto, po...

Você gostava dela né?

- É...

- Ih, aquele cara tinha a maior cara de pato. Deixa só ele botar no alto de novo, corto e aparo facinho. Vou descobrir o nome dele para a gente zoar na próxima.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Betsy

Betsy esperou a volta do homem para morrer.

Antes da viagem ele notara que Betsy mostrava um apetite incomum. Depois surgiram outros sintomas, ingestão excessiva de água, incontinência urinária. O único problema de Betsy até então era a catarata numa das vistas. Ela não gostava de sair, mas antes da viagem entrara inesperadamente com ele no elevador e os dois passearam no calçadão da praia, algo que ela nunca fizera. No dia em que o homem chegou, Betsy teve o derrame e ficou sem comer. Vinte dias sem comer, deitada na cama com o homem. Os especialistas consultados disseram que não havia nada a fazer. Betsy só saia da cama para beber água.

O homem permaneceu com Betsy na cama durante toda a sua agonia, acariciando seu corpo, sentindo com tristeza a magreza de suas ancas. No último dia, Betsy, muito quieta, os olhos azuis abertos, fitou o homem com o mesmo olhar de sempre, que indicava o conforto e o prazer produzidos pela presença e pelos carinhos dele. Começou a tremer e ele a abraçou com mais força. Sentindo que os membros dela estavam frios, o homem arranjou para Betsy uma posição confortável na cama. Então ela estendeu o corpo, parecendo se espreguiçar, e virou a cabeça para trás, num gesto cheio de langor. Depois esticou o corpo ainda mais e suspirou, uma exalação forte. O homem pensou que Betsy havia morrido. Mas alguns segundos depois ela emitiu novo suspiro. Horrorizado com sua meticulosa atenção o homem contou, um a um, todos os suspiros de Betsy. Com o intervalo de alguns segundos ela exalou nove suspiros iguais, a língua para fora, pendendo do lado da boca. Logo ela passou a golpear a barriga com os dois pés juntos, como fazia ocasionalmente, apenas com mais violência. Em seguida, ficou imóvel. O homem passou a mão de leve no corpo de Betsy. Ela se espreguiçou e alongou os membros pela última vez. Estava morta. Agora, o homem sabia, ela estava morta.

A noite inteira o homem passou acordado ao lado de Betsy, afagando-a de leve, em silêncio, sem saber o que dizer. Eles haviam vivido juntos dezoito anos.

De manhã, ele a deixou na cama e foi até a cozinha e preparou um café puro. Foi tomar o café na sala. A casa nunca estivera tão vazia e triste.

Felizmente o homem não jogara fora a caixa de papelão do liqüidificador. Voltou para o quarto. Cuidadosamente, colocou o corpo de Betsy dentro da caixa. Com a caixa debaixo do braço caminhou para a porta. Antes de abri-la e sair, enxugou os olhos. Não queria que o vissem assim.

FONSECA, Rubem. Histórias de amor, Cia das Letras, São Paulo, 1997, p.09.

domingo, 27 de julho de 2008

Cinema

A noite chegara e ele escrevia palavras tristes. Tudo o que ele queria era ligar para ela, dizer o quanto tinha gostado do beijo no cinema. Dizer que há meses ele ensaiava frases feitas. Que não acreditava que fosse possível, que ele estava nas nuvens. Contar para ela e rir do medo bobo que tantas vezes o fizera gaguejar e exitar na presença dela. Mas não podia. Aquela tarde não fora diferente das outras. Mais uma vez, o que ele planejara não acontecera. E ao invéz da ligação, ele tinha que se contentar com palavras tristes e a sensação de ser nada. Dormir só depois de pensar exaustivamente que realmente não merece nem os sorrisos que ela dá. Pensar nisso até começar a ensaiar as frases de sempre.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Aflore

Deixe que aflore
Viva a festa
Vinho de dionisio
Beba a vida
Dance
Transborde
Festa de dionisio
Amanhã
Mortais novamente
Deixe que aflore
Amanhã
Mortais apaixonados.

sábado, 7 de junho de 2008

Um girimum falante

Não faço coisa errada.

Povo sem jeito

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Praia

- Vamos fazer uma poesia juntos?
- tá, você começa.
- Fui à praia hoje.
- E sábado?
- Não cara, é o começo da poesia.
- Pois é, to continuando.
- Ah, tá. Vamos também (não vamos não.. Não poderei - não faz parte da poesia)
- O sol estará brilhando e a água cristalina (é poesia)
- Vou entrar na água, pular na água, meu bem(puutz!).
- Tá ficando ruim né?
- Tá, mas vamos terminar.
- Conclui então.
- O do globo, me vê um salgado, e um doce também.
- Eu vou querer um mate. fim.
- Vamos brincar de montar músicas?
- Vamos.

A noite.

Era o dia melhor da sua vida, o véu branco que prejudicava a visão foi sonho em muitas noites adolescentes. Sonhos de princesa, que evoluíram com o tempo, fazendo com que ela não mais exigisse um príncipe encantado.
Desceu do chrysler com cuidado, posou para fotos e foi de encontrou ao pai. A expressão paterna quase a fez chorar. Respirou fundo e olhou para a igreja lotada. Parentes, amigos, e gente da qual nem ela lembrava aonde conhecera. No altar, viu um noivo de sério semblante e padrinhos que pareciam de papelão. Era tanta gente, que ela não sabia para onde olhar. E para onde olhava sentia a falta daquele que fora o mais importante da sua história.
Caminhou sobre o tapete vermelho ao som da marcha nupcial, imponente por fora e encolhida por dentro. A indecisão fora combatida por uma coragem tirada de onde nem Deus sabe. Atravessava os passos e forçava o ritmo, que era constantemente contido pelo pai. Ao chegar ao altar, não conteve as lágrimas ao ver que os traços do noivo nada lembravam os daquele dos tempos de sonhos de príncipe. Ele fingiu não ver as lágrimas e voltou as suas atenções às falas do padre. Ela fechou os olhos e se viu no lugar onde vivera a melhor fase da sua vida. Viu cachorros correndo e sentiu beijos antigos. Mais uma vez, desejou voltar no tempo. Desejou não ter deixado escapar aquele que a tinha feito conhecer o verdadeiro amor.
E assim, de olhos fechados, fez o sermão passar mais rápido. Mais uma vez olhou para trás, inquieta, tinha esperanças em vê-lo em uma noite tão importante para a sua vida. Procurou tanto que o encontrou, lá estava ele. Estagnado, lágrimas mudas e um rosto que não se movia. Não chegava a piscar, triste. Quando percebeu que a noiva olhava para ele, deu um sorriso forjado e balançou a cabeça para frente. Ela não fingia mais, já não havia maquiagem restante. Desejou fugir, feito em filme de cowboy. Não teve coragem.
Ao fim da cerimônia, só restava uma certeza. A de que não queria estar ali, na melhor noite da sua vida. Percebeu que houve outras melhores, muito mais mágicas. Noites cujas lembranças ainda fazem-na chorar. Lembrou de manhãs, tardes, que faziam-na suspirar; percebeu que o passado nunca sairia da sua cabeça. E pensou novamente em como teria sido, se ela não tivesse tentado deixar de amar aquele que fora o único capaz de dar a vida por ela.

domingo, 1 de junho de 2008

O meu acordar

Acordar ao seu lado é a melhor coisa do mundo, adoro quando você me olha de lado com um sorriso matinal e diz que me ama.Adoro seu sorriso, já te disse isso? Adoro seu beijo, sua pele, seus olhos, seus olhares. Adoro o jeito com que se preocupa comigo. Adoro saber que não vive sem mim, que adora me ligar, que adora quando eu ligo. Adoro passear com você,você tranforma qualquer lugar em um jardim florido. Adoro seus abraços longos de quem pede proteção, adoro te proteger.Amo amar-te e amo cada dia mais. Tudo um dia passa, você fica. Você ficará para sempre nem que seja invertendo a minha vida.Fazendo o meu dormir, virar acordar. Me fazendo assim, acordar todos os dias ao teu lado. Sem nunca ter ido dormir junto a ti.

Não posso

Ele deita e nela pensa.
Logo fala: "Não, não posso".
Muda o pensamento, pensa no trabalho.
Aí lembra dela.
Muda os pensamentos, se força.
Sem deixar de falar o "não, não posso",
Até parar de rolar na cama e conseguir dormir.
No sonho ele esquece do "não, não posso".