quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Shivers

São calafrios nunca sentidos antes,
são dores prazerosas de momentos sufocantes
que vêm de lugares em mim
onde eu nunca estive.
Que mordem em um assoprar sem fim
e me encontram não importa o quanto esquive.
Batem fortes como ondas frias
de um mar ressacado,
São tristes como sangrias
que me deixam todo marcado.
Invadem a minha alma
e me jogam de cabeça para o fundo.
Mas que passados, deixam a mente calma
e faz do peito tenro solo fecundo.
Na turbulência não respondo, e por segundos infinitos
acredito não precisar mais de respirar.
Quando canto, ninguém ouve meus gritos,
insuficientemente fortes para te trazer para cá.
É quando da agonia faz-se o pranto,
e viver é plena lamuria por estar acordado.
Pensar é arremessar longe qualquer arrependimento,
por no mar de calafrios eu ter me jogado.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Rosas são clichês.


Rosas são clichês.

E o amor é sempre o que há de ser.

O amor é a rosa.

E a lua, e os fins de tarde,

E o sorriso que me traz à rosa.

O mar, os náufragos e seus desejos,

Afundam-se inteiros no clichê das rosas.

Nada mais é poesia, nada mais é belo.

Pois o que há de mais belo já foi dito.

Repito, e grito aos sete ventos dos clichês,

A angústia da insensatez.

É triste e belo o fato de querer para mim,

Reinventar o que de mais belo existe

Por saber que quando digo que te amo

Não chego perto de dizer o que sinto.

domingo, 15 de novembro de 2009

Vício da lembrança

‘Escrevi.

Tanto que apaguei tudo

Para dizer: ‘Eu te amo’”


Só isso e nada mais, um bilhete deixado em um banco, e a certeza de não saber o que fazer. Maria era tímida. Talvez pelos anos de perseguição aos defeitos exercida pelos amigos dos colégios pelos quais passara. Da feiúra ao pleno resplandecer, a vida quis assim, e o fado da pobre garota era a discrepância entre a mente feia e o lindo corpo. Nunca soubera como agir com os belos rapazes que a ela juravam eterno amor, nunca soube sequer deixar-se levar por paixão qualquer, e nunca soube o que é o amor.

Tolas palavras, as dos poetas. A vida vazia era remédio para viver sem abalos. De tensões, nada entendia. Era frígida, calma, e sempre lúcida. Nem a morte dos pais a fez chorar. Ela bem que tentou, mas as lembranças dos açoites e maltratos contiveram os traços e a velha expressão estática voltou a reinar na bela face da moça. Nem de morte os poetas entendem.

A vida quis também, que de tantos que tentaram, um conseguisse, pouco à pouco, roubar-lhe o coração. No começo não era nada além da estranha sensação de não ser agraciada, o homem à instigou com todo aquele desprezo. Ela pensava não ligar, mas naquele dia, sentiu não era lá tão forte assim.

Ele à amou desde o primeiro cruzar de olhos, era tão linda que de um lance fez-se perpétua em imagem nas lembranças do rapaz. Abaixou a cabeça e nada fez, convencido de que nada podia e consolado pela magnífica beleza que já estava guardada em sua memória, aquilo para ele já bastava. Já bastava para o momento, pois do vício da lembrança, a moça fez-se cólera em sua mente. O rapaz já não fazia nada, e nada queria fazer senão lembrar do belo sorriso que acreditava nunca mais ver.

Nunca mais verei! Nunca mais verei! Afirmou tanto que foi obrigado a se questionar. Nunca mais verei? Da cólera das lembranças, surgiu a necessidade do encontro, e o moço passou a voltar ao lugar precisamente à mesma hora por dias. Somente no quinto a moça surgiu. Impetuosa ao andar, rodeada de favores, toda ocupada em seus afazeres, ela lembrou do homem que não à olhava nos olhos; e quis saber mais sobre as coisas que se passavam naquela cabeça abaixada.

De Bom dia à como vai, do talvez amanhã ao hoje sim. Os dias passavam e os encontros tornavam-se necessários. Sentados em um banco de praça, conversavam sobre tudo o que sabiam, discutiam e se questionavam, às vezes até brigavam. Briguinhas bobas, questões de opinião. Sucediam normalmente, até o dia que não.

A coisa ficou feia quando o rapaz achou por bem avisa-la que costumava passar noites em claro pensando na próxima vez que a encontraria. Disse que as últimas semanas foram mágicas e aterrorizantes ao mesmo tempo, que ela já não sairia da cabeça dele. Gaguejava. Quis falar de rosas, quis falar do céu, do mar, e do infinito. Disse que a amava. Quis ser poeta. Nada o veio, mas o desabafo foi completo. “Não há nada, absolutamente, que eu faça, que não me remeta a você.” E ao prever a reprovação expressa na face seca da bela dama, argumentou: “já não espero nada de ti, acho que – exceto a sua existência – nunca nada esperei.” Do silêncio à fala da moça, infinito no pensamento do rapaz.

“Eu já devia suspeitar, você nada tem de diferente dos outros. Cafajestes, estão ficando cada vez mais argilosos. Veja só, agora já se dão o trabalho de espreitar suas ‘vítimas’ por algum tempo.” Disse enquanto ia embora sem olhar para trás.

Foi ao chegar em casa que deu conta do sentido das palavras que ele tinha dito. Percebeu que já não havia nada que conseguisse fazer sem nele pensar. Confusa, e sempre metódica, quis escreve-lo para que transbordassem seus pensamentos. Quis ser poetiza ao perceber a bela tolice presente nos mais pobres poemas. Se entendeu tanto que o mundo mudou, escreveu tanto que tudo apagou e, no banco dos encontros, um bilhete, deixou.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Prelúdio para o desencanto.

Seus cachos cabelos eram de parar
Só para eu só os apreciar
Sorriso de canto de querer voar
Som de pássaros ouvir cantar
Sentir o seu jeito macio de andar
Samba de roda e o seu rebolar
Santo desejo de aproximar
Suave era o cheiro do doce falar
Sobre bochechas o belo olhar
Sem graça por mim a me ver gaguejar
Sintoma do fato de querer beijar
Silencio da voz que não pude escutar
Soube do sim sem acreditar
Sentado no mundo me pus a voar
Sentindo a brisa que vinha do mar
Sai da canção me pondo a pensar
Que a perfeição que mexeu esse tanto
Imenso de tudo de volta meu pranto
Era lindo prelúdio para o desencanto

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Perfeito Sorriso

Só o brilho da noite macia,

Só os lábios que acaricia,

A vida e o ato triste de viver sem,

O desmundo do sem ninguém.


Cresce a planta, morre o dia.

Com toda a beleza que se inicia.

Traz e leva a lembrança embora,

Do peito que agora chora.


Cresce o manto fruto do pecado,

Que ousou um dia estar ao lado.

Canta e dança o que de belo existe,

Só para lembrar que a vida é triste.


Diz belezas pelas quais se enamora,

E grita do peito a dor de outrora.

Cria a vida que acha que tem,

Por não ter de entrega-la a ninguém.


Mostra os dentes para a lua nova,

E grita o quanto agüentar possa.

Corre e pula para dizer ao mar,

Que já não pode mais esperar.


O encontro de altar, a voz a falar, a boca a beijar,

Ou a morte, o encanto acabar.

Canta os versos quando se anuncia,

Sem saber do fim,

Que há de nunca chegar,

Sem pelo menos ter lucidez,

Do perfeito sorriso a sorrir outra vez.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Caso casado.


Como de costume, Beto tocou a campainha da casa de Clarinha. Pela hora, a mãe da menina já sabia que era o garoto chamando a sua filha para brincar na praça.

- Clarinha! O Beto chegou, escova os dentes e pode sair. Já sabe, ? Se não voltar antes do escurecer eu boto Deus e o mundo atrás de você! E não me saia daquela praça!

Clarinha já sabia que o discurso não mudava, e mentalizava palavra por palavra enquanto pronunciava freqüentes “tá’s”. Findo o bordão, corria para a porta. E com uma ânsia de correr o mundo, a abria e voava pela calçada que a levava à praça.

Naquele dia o garoto parecia estranho, não correra atrás dela. Fora andando cabisbaixo chutando o vento como quem a pretensão de levar uma pedra para casa. Sentou no balanço ao lado do que o da inquieta menina e olhou para o nada. O tempo passou, o balanço balançou, uma nuvem escureceu o céu, e ele falou:

- Clarinha.

- O que foi? – disse com um tom meio ofegante de quem quer balançar mais alto.

- Você já sentiu ciúmes?

- Não sei, acho que já. Por que?

- Como é isso?

- Que papo é esse Beto? De onde você tirou esse negócio de ciúmes?

- Eu ouvi a minha mãe falando no telefone ontem de noite. Ela falava o tempo inteiro pro Carlos não sentir ciúmes do meu pai.

- Carlos é aquele chefe do seu pai?

- É.

- Aquele que te deu o carro de controle remoto?

- É.

- Ele é legal.

- Me explica o que é ciúmes!

- Ah, é quando você quer uma coisa só pra você. Você não me deixa brincar com o carrinho que ganhou do Carlos por que tem ciúmes dele. Entendeu?

- Então a gente só pode ter ciúmes das nossas coisas?

- Acho que sim. Não sei, lá vem você com essas suas complicações – percebeu que teria que conversar e parou de balançar.

- Meu pai casou com a minha mãe, então um é do outro. É normal sentirem isso um do outro, ?

- Isso.

- Mas e o Carlos, porque ele teria ciúmes do meu pai?

- Vai ver eles tem um caso ...

- Caso, como assim?

- Ai, como você é bobinho. Não vê novela, não? O Artur Fontana, aquele personagem do Tarcisio Meira é casado com a da Glória Pires e tem um caso com aquela empregada lá. Ele fala que são “escapadinhas” – riu.

- E se ele resolver casar com a empregada?

- Aí vira caso casado.

- Então a minha mãe tem um caso com o Carlos? – parou e procurou o nada novamente.

- Olha pra mim – disse a menina, erguendo o queixo do pensativo garoto –, eu sei que devia ter te contado isso antes, mas eu achei que você poderia nunca descobrir, e isso seria melhor... Eu acho...

- O que é?

- Outro dia eu ouvi a minha mãe falando que o viu o Carlos com a sua mãe, que tinha quase certeza que era um caso.

O garoto a olhou com um silêncio de não saber como reagir. Inocente demais para sentir raiva, ou sequer entender o que se passava.

- Tá, o Carlos tem um caso com a minha mãe. Mas quando a gente tem caso com uma pessoa, essa pessoa não é nossa nem pode ter ciúmes, são escapadinhas... ?

- É... – disse a menina franzindo a sobrancelha e se esforçando para acompanhar o raciocínio.

- E quando duas são casadas, tem direito do ciúmes. Como pode um caso ter ciúmes do casado? Sendo que o caso sabe que antes de ser caso o seu caso era casado com outro? Eu acho que o caso só pode ter ciúmes quando vira caso casado, porque aí o primeiro casado já não é mais casado. Pode até virar caso, mas não pode ter ciúmes.

- Eu concordo – disse sorrindo. O garoto esquecia de tudo, por ter feito uma teoria que Clarinha concordara e agora olhava imponente por cima do nariz empinado. Ela continuou:

- Mas as pessoas são estranhas, e esse negócio de sentir ciúmes parece ser mais complicado do que eu achava que era.

- Clarinha... – a menina virou, atendendo ao chamado do garoto.

- Me promete uma coisa?

- O que?

- Se um dia, alguém te disser que sente ciúmes quando te vê comigo, me avisa?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O maior dos amores

Sei da angústia que me dá viver
Desde o dia que me esquadrinhei
E decidi sozinho o caminho percorrer.

Eram tantas as opções de vida plena
Que eu me vejo optar pela esbórnia de toda noite
E me calo no encanto do luxo da vida.

A morrer de ciúmes sem posses
Num estado miserável de consciência
Por saber que ela poderia ser minha.

Objetos se quebram ao meu redor
Em uma tentativa já intrínseca ao que sou
De tentar entender o que fui e o que quero ser

O que seria da vida conjugal? Vai saber...
Daqui não me movo para construção nenhuma
Até o dia em que me der conta
Que construí o maior dos amores...